sábado, 11 de abril de 2015

Sobre o prazer de estar sempre em contradição e o não ao estupro da alteridade

Era mais fácil quando havia alguém na casa, quando o barulho das panelas me acordava, quando alguém me mandava tomar banho. Ah, que inocência! Pensava eu: "Por que preciso fazer isso? Eu não quero tomar banho!" - "Por que limpar o carro tão bem assim?". Os anos passaram e não tive mais panelas batendo na minha cozinha, nem gente pra me mandar tomar banho, nem ninguém pra dizer qual era o caminho certo entre os muitos caminhos que escolhi.
Antes, quando havia alguém, era tudo tão mais fácil. Eu não precisava me ocupar das incertezas e preocupações, nem das responsabilidades. Mas, eis que foi embora o outro dominador. E agora José? Lembro que com 10 anos de idade eu já pensava comigo, depois de um bom esporro do meu pai: "Velho desgraçado! Estou com ódio, mas ele tem razão!" - Ah, o supereu! Desde então tenho lidado com minha própria moralidade, com meus próprios sim e não. E a arrogância e o prazer foram tantos que cheguei a levar uma surra por dispensar o olhar cuidador do outro... "Eu sei o que tenho que fazer! Não sou burro!" - toma chinelada!
Mas, o gozo de poder ser arrogante o suficiente pra dar conta da própria vida sem enfiar no outro o peso dos meus pecados, estuprando a alteridade, é fantástico. Sempre penso que muitos crentes precisam de deus pra saber por que pecam. "Se deus não existe tudo é permitido". Sim, é mesmo. Nem tudo é conveniente. A ameaça de esvaziamento do grande outro planejador, construtor, protetor e invasor joga no limbo o sujeitinho agarrado à ali-é-nada fala e culpa do outro.
Os sujeitos se perdem. Queixam-se desvairadamente de uma vida que jamais tentam mudar. Oram para santos, padres, deuses e políticos, pedindo bênçãos que não os vão satisfazer. Me dá alguma tristeza ver as pessoas se projetando no lugar de objeto. "Ah, mas a vida me fodeu!". Temo dizer, mas todos nascemos fodidos, trocados e enganados. Uns mais que outros, mas a condição é a mesma. Quem deu as cartas estava nos enganando. Contudo, alguns saem por aí e escolhem foder os outros - "Vamos aderir ao jogo! Minha vez de dar as cartas!"-, alguns abandonam a mesa e jogam as cartas no chão, outros simplesmente jogam com as cartas que tem. Afinal, não é porque a trapaça foi feita que o trapaceiro vai necessariamente ganhar. O jogo pertence ao acaso mais do que à astúcia.
Enfim, parece-me que alguns de nós querem continuar o jogo roubado sempre acusando o outro de o ter iludido, mas também, sempre perdendo. Os sujeitos se perdem por estarem tão bem situados sob a palavra do outro.
Quer ver um sujeito perdido. Diga a ele onde está!