sábado, 14 de fevereiro de 2015

Quando se tem dezesseis

Quando se tem dezesseis a vida parece muito mais assustadora. Os adultos não são tão grandes, mas são tão chatos. Por que eles não entendem? Por que não percebem as contradições, as discrepâncias, as injustiças e as mentiras? Quando se tem dezesseis a vida nos mente bem mais. Nos enche de falsas promessas, como um peregrino de Jeová te levando a palavra, os pais nos levam à vida. Nos trazem até a porta, do jeito que podem, tropeçando, duvidando, errando, nos atrapalhando pra que não cheguemos rápido demais ou mesmo pra que nem cheguemos (pra muitos pais os filhos precisam reconhecer-lhes o esforço, como se criar um ser humano já não fosse um presente). Quando se tem dezesseis essa porta é maior, é mais atraente. Libertar-se dos velhos impedimentos e das amarras ainda não é possível, mas é possível fazer algo, revoltar-se, drogar-se, dormir, comer, estudar ou fantasiar algum tipo de conforto. Porque, afinal, é preciso um conforto. Quando se tem dezesseis, dói. Dói no corpo, dói na cabeça, dói na rua, na escola, em casa; dói ser forte, dói ser bobo, dói não saber o que dizer, dói não dizer nada, dói não ser tão feliz quanto gostaria. Mas, é natural que doa. Saímos de uma vida quase perfeita, plena de alienação e de projeções de falsos desejos e necessidades. E agora? Quando se tem dezesseis, se pode desejar alguma coisa?

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