terça-feira, 19 de maio de 2015

Por quando não te amo

Por quando eu não te amo
Faço verso em prosa torta
Por quanto eu te amo
Durmo inerte contigo nos braços

Por enquanto eu te amo
E já não sei desde quando
Por tanto que te amo
Que te vejo em outras faces

Portanto, te amo.
Mas, escrevo agora e
Por quando não te amo

 Que é quando morro de saudade. 

sábado, 11 de abril de 2015

Sobre o prazer de estar sempre em contradição e o não ao estupro da alteridade

Era mais fácil quando havia alguém na casa, quando o barulho das panelas me acordava, quando alguém me mandava tomar banho. Ah, que inocência! Pensava eu: "Por que preciso fazer isso? Eu não quero tomar banho!" - "Por que limpar o carro tão bem assim?". Os anos passaram e não tive mais panelas batendo na minha cozinha, nem gente pra me mandar tomar banho, nem ninguém pra dizer qual era o caminho certo entre os muitos caminhos que escolhi.
Antes, quando havia alguém, era tudo tão mais fácil. Eu não precisava me ocupar das incertezas e preocupações, nem das responsabilidades. Mas, eis que foi embora o outro dominador. E agora José? Lembro que com 10 anos de idade eu já pensava comigo, depois de um bom esporro do meu pai: "Velho desgraçado! Estou com ódio, mas ele tem razão!" - Ah, o supereu! Desde então tenho lidado com minha própria moralidade, com meus próprios sim e não. E a arrogância e o prazer foram tantos que cheguei a levar uma surra por dispensar o olhar cuidador do outro... "Eu sei o que tenho que fazer! Não sou burro!" - toma chinelada!
Mas, o gozo de poder ser arrogante o suficiente pra dar conta da própria vida sem enfiar no outro o peso dos meus pecados, estuprando a alteridade, é fantástico. Sempre penso que muitos crentes precisam de deus pra saber por que pecam. "Se deus não existe tudo é permitido". Sim, é mesmo. Nem tudo é conveniente. A ameaça de esvaziamento do grande outro planejador, construtor, protetor e invasor joga no limbo o sujeitinho agarrado à ali-é-nada fala e culpa do outro.
Os sujeitos se perdem. Queixam-se desvairadamente de uma vida que jamais tentam mudar. Oram para santos, padres, deuses e políticos, pedindo bênçãos que não os vão satisfazer. Me dá alguma tristeza ver as pessoas se projetando no lugar de objeto. "Ah, mas a vida me fodeu!". Temo dizer, mas todos nascemos fodidos, trocados e enganados. Uns mais que outros, mas a condição é a mesma. Quem deu as cartas estava nos enganando. Contudo, alguns saem por aí e escolhem foder os outros - "Vamos aderir ao jogo! Minha vez de dar as cartas!"-, alguns abandonam a mesa e jogam as cartas no chão, outros simplesmente jogam com as cartas que tem. Afinal, não é porque a trapaça foi feita que o trapaceiro vai necessariamente ganhar. O jogo pertence ao acaso mais do que à astúcia.
Enfim, parece-me que alguns de nós querem continuar o jogo roubado sempre acusando o outro de o ter iludido, mas também, sempre perdendo. Os sujeitos se perdem por estarem tão bem situados sob a palavra do outro.
Quer ver um sujeito perdido. Diga a ele onde está!

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Quando se tem dezesseis

Quando se tem dezesseis a vida parece muito mais assustadora. Os adultos não são tão grandes, mas são tão chatos. Por que eles não entendem? Por que não percebem as contradições, as discrepâncias, as injustiças e as mentiras? Quando se tem dezesseis a vida nos mente bem mais. Nos enche de falsas promessas, como um peregrino de Jeová te levando a palavra, os pais nos levam à vida. Nos trazem até a porta, do jeito que podem, tropeçando, duvidando, errando, nos atrapalhando pra que não cheguemos rápido demais ou mesmo pra que nem cheguemos (pra muitos pais os filhos precisam reconhecer-lhes o esforço, como se criar um ser humano já não fosse um presente). Quando se tem dezesseis essa porta é maior, é mais atraente. Libertar-se dos velhos impedimentos e das amarras ainda não é possível, mas é possível fazer algo, revoltar-se, drogar-se, dormir, comer, estudar ou fantasiar algum tipo de conforto. Porque, afinal, é preciso um conforto. Quando se tem dezesseis, dói. Dói no corpo, dói na cabeça, dói na rua, na escola, em casa; dói ser forte, dói ser bobo, dói não saber o que dizer, dói não dizer nada, dói não ser tão feliz quanto gostaria. Mas, é natural que doa. Saímos de uma vida quase perfeita, plena de alienação e de projeções de falsos desejos e necessidades. E agora? Quando se tem dezesseis, se pode desejar alguma coisa?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Bobo por bobo, doente por doente

O sujeito injustiçado... Sofre de um mal terrível: o mal de perder algo que nunca teve. Como assim me tiraram algo? Algo que ainda nem conquistei? Como assim, meu filho morreu? Ele nunca viveu comigo! De que maneira podem me tirar esse dinheiro? Eu nem o gastei! Por que a polícia não prende esses marginais? Eles vão acabar me roubando, me tomando isso que eu ainda nem ganhei, haja vista que sou pobre e miserável. Vai que roubem do meu irmão, que é rico e nunca usou nada do que tem?

Ah, o sentimento de posse... Ele alucina! Esperava algo ainda disso que lhe foi tirado? Viva, Robin Hood, que roubava o inútil para dar a quem não o quer, fazendo os pobres sentirem-se ricos por terem aquilo de que nunca precisaram! Afinal, riqueza deve ser isso mesmo... Ter o que não se precisa. Um gozo. O injustiçado só acharia justo o crime se ele pudesse também matar, roubar, “punir”... gozar!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Tonho, o tristonho

Tonho andava
sempre tristonho
a chaleira fervia
e Tonho não via.

Cadê essa cabeça?
Olha só a água!
A vida tá avessa
virada só em mágoa!

Um dia Tonho cansou.
Saiu trôpego pra rua
Na esquina se enamorou
de negra de tez nua.

Inundou-o a paixão
e Tonho, o tristonho
não tinha teto nem chão.
Vivia como num sonho.

Mas, alegria de Tonho
Dura só um carnaval
Tão acostumado estava ser Tonho
pra quem felicidade era coisa de jornal.

Não sabia ser feliz
só bebia seu triste vinho
A cerveja amolecia o nariz
só via pedras no caminho.

Então, a nega requebrou
encheu o olhos do tristonho
Seu marasmo arrancou
Botou amor nos dedos de Tonho.