sábado, 18 de outubro de 2014

Posso falar com gente morta!

Sábado de manhã. Subo uma pequena ladeira. Porta idiota, sempre demora para abrir. Eu gosto de portas que eu possa abrir sozinho. Elevador... "É mesmo o terceiro andar?" Espero alguns minutos. Hoje não tenho nenhum livro, não há nenhuma novidade no meu celular, não tem como fingir distração quando essas mulheres, que já aparentam cansaço de suas vidas de filhos adolescentes e maridos de negócios, passam a minha frente esperando um olhar. "Porra velho, seu consultório tinha mesmo que ser do lado de um salão de beleza!?" - lembro de já ter expressado isso no divã... Passa uma mulher mais jovem, me olha, como quem espera um bom dia. Não digo. A quem chega cabe o esforço do cumprimento. Se o contrário for válido, dane-se.
Enfim, ele entra, a música relax, um copo d'água. Entro. Faço alguma observação estúpida. Eis o divã. Deito...
Morte, pais mortos, pessoas doentes. Meus pais estão velhos, tenho uma irmã pequena, me preocupo. Velórios, gente chorando. Nunca perdi ninguém. Estranhamente chego a falar de mudanças nas formas como meus amigos de pouco tempo atrás se comportam, falam, são.
Plástico... o termo se repete, não na voz, mas na cabeça - fujo da regra. Plástico sim, porque certos olhares e certos beijos foram de plástico. Mas, o que tem os mortos do assunto anterior com isso? São pessoas mortas. Nada mais morto do que o plástico.
Paixões, relacionamento que não deu certo. Sonho com nova garota. Ela é incrível. Difícil de ver, difícil de saber, difícil de se aproximar, fora do meu padrão. Mas, é fantástica. Chego ao ponto da minha inibição, minha dificuldade de dar o primeiro beijo, marcar o primeiro encontro, puxar assunto sobre o tempo com gente desconhecida. Meu pai dizia "não tem nada pra dizer, fica quieto!" (isso só me ocorre agora - certas coisas fogem do divã). Eu era sempre o mais silencioso, mais calado. Na adolescência eu falava, falava em excesso. Bobagens. Reclamações pululavam. As pessoas me odiavam. Pessoas mortas, pessoas de plástico. Eu também as odiava. Não podia falar com pessoas mortas, melhor ficar quieto. "Não posso falar com pessoas mortas!". Fim da sessão. Pago. Desço o elevador. Viro a esquina... "Não, eu posso sim falar com pessoas mortas!" - parece uma mera inversão. Caminho mais alguns quarteirões. "Bom dia, Dona Marli!". Aula. Logo estou discutindo política pública com alguém. "Estou discutindo com gente morta!". Fico feliz!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Blues noite

Ao som do blues
A vida divaga nas últimas horas
da última frase da poesia semanal

Sob o céu do sul
Resto eu, cansado de mais um vinho,
Inebriado por esse bem que fará mal

Um hematoma no copo.
As bordas silenciosas do vidro
Parecem queixar de sanidade

Copo coitado,
É aí espancado pela solidão
Enquanto eu só de beijar-te os lábios sou saudade

Faça-me insano
Só por algumas horas.
E que de pureza e sobriedade ninguém passe essa vida


Porque ninguém é feliz.
Sem poréns. Ninguém cantará
Se não for ébrio, perdido nas entrelinhas de suas feridas.

Boa noite.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O tédio dos cartoons

Coisas comuns entediam. A rotina é mesmo um inferno, uma morte em vida. Na infância era todos os dias os mesmos malditos programas. Decorei as falas de alguns episódios de desenhos animados e vivia pensando que cair de um prédio era algo muito repetitivo. Algo nos desenhos, contudo, era marcante. Não havia morte e eles morriam todos os dias. Carros passavam em cima do inocente Coiote que por algum motivo jamais pegava o transcendente Papa-Léguas. O pica-pau cometia crimes horríveis, atirava em pessoas, derrubava, jogava bombas, torturava e atormentava. Mas, não havia nada que uma nova chamada não perdoasse. Começava um novo episódio e os desenhos não tinham histórias, eram novos, eram os mesmos sendo outros. Eram os mesmos pois repetiam o opróbrio, mas eram outros, pois jamais pagavam por seus pecados. Todavia, não aprendiam com seus erros e novamente cometiam as mesmas gafes. Era rotineiro, tedioso, mas era sempre novo. Pobres cartoons, não têm histórias, não têm verdades.
Parece mesmo que a vida segue esse curso. Quanto mais repetições, menos histórias. Quanto mais pecados esquecidos, menos lições aprendidas. Imagine o tédio dos cartoons! Nunca haverá morte! Novamente virão episódios, vão encontrar novas bombas, novos tiros, novas tramas e artimanhas e nada vai mudar. O final vai ser sempre o mesmo velho bordão à moda do "that's all folks!", como uma indulgência fatal.
O dia-a-dia me faz sentir alguns "sujeitos cartoons" por aí. A vida, para estes belos fugitivos da morte (uns até falam em matar-se ou "morrer-se", vejam só), é um colapso de chatice, um "mais do mesmo" eterno. Vivem na certeza absurda, no campo do lógico, ou às vezes nem isso. Comem com suas bocas recheadas de dentes que brilham mais que os olhos, dizem verdades prontas, fazem piadas corriqueiras, gostam das vozes mais altas, das músicas mais fáceis, do pronto e acabado, do "vamos dar um jeito". Me vejo perdido às vezes. Por que diabos não podem enlouquecer? Por que precisam manter essa superfície obsequiosa que, sabe-se, está sempre na espreita do outro salvador e completante, do outro sufocador, do outro ladrão de bons sentimentos que lhe valerá uma queixa futura? Por que não podem simplesmente sentir as coisas prêt-à-porter, sem dar a essas mesmas coisas essa monotonia inexorável e triste. Sentir! É isso que os cartoons não fazem! Não dói! O caminhão passa em cima do Coiote e ele pragueja aos ventos, mas não sente nada, tem ainda a audácia de fazer caras. Cartoons e as caricaturas de si mesmo que vejo por aí. Parecidíssimos. Não morrem, não historiam, não vivem.