sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Será que sabemos dizer quem somos?

Quem foi o primeiro que te disse que essa maquiagem combina com os seus olhos? Você lembra aonde aprendeu a falar desse jeito? Sabe de onde veio essa mania estranha de acordar em cima da hora e não arrumar a cama? Você, por acaso, já pensou diferente do que pensa agora? Afinal, por que somos como somos? Ou, melhor, somos o que cremos ser?
O exercício da língua é o mais cativante de todos. É cômico ver as pessoas se misturando às palavras, se perdendo nos ditos, se fazendo significado dos seus significantes. É quase como se o dizer viesse antes do ser. "Não sei o que sou, mas posso dizer algo a respeito!"... Eis um efeito de abertura! Faz-se algo com o "si mesmo" e isso é feito por aquilo de mais banal que possuímos: a linguagem!
Quase todos os dias eu entrevejo a pergunta tácita e, às vezes até explícita do paciente: "mas é só isso? Eu só venho aqui e falo?" Invoco alguns recursos retóricos para não surpreendê-lo com o óbvio do "sim, é só isso!" Contudo, não, não é só isso! Sabe isso que você não diz? Esse núcleo escuro do seu ser que você vela como se cuida de um defunto, apenas esperando chegar a hora de enterrá-lo? Sabe essas palavras que você escondeu, que você esqueceu, que você perdeu e que lhe escaparam? Pois então! A linguagem lhe permite usar esse tácito, mostrá-lo ao mundo! Por desventura as pessoas medem as palavras. Medem quase que milimetricamente, como se o dizer fosse um bem precioso que não pode ser compartilhado... "Nossa, deus me livre! Vai que eles descobrem que eu tenho um desejo para além dessa minha moralista hipocrisia?"
Diga! Diga de tudo, faça as palavras lhe fugirem! Pareça insano e não adequado, bobo, infantil ou incoerente! Mas, diga! É por dizer, é por falar desesperadamente à moda dos loucos que Kerouac amava, dos loucos que moram em prisões, dos loucos que atreveram-se a dar a vida por um significado, a dar ao significante uma vida, que a vida passou a valer um significado! Diga, e algo se produzirá a sua volta: a verdade!