domingo, 17 de agosto de 2014

Não é gripe, é só poeira

Terminar um relacionamento é sempre um drama, uma novela (quem dera fosse poesia). É duro. Você vê os meses passando, as pessoas que você conhecia muito de perto mudando e traçando rumos diferentes para suas vidas; você mesmo já traçou tantos objetivos e mudou tanto que nem entende mais o que aconteceu e porque agia daquela forma antes. O tempo tem  um efeito amnésico muito interessante. Contudo, ele faz esquecer - à moda da memória infantil - o que é importante, mas guarda o que é trivial e pequeno. Um punhado de coisas pequenas, como partículas de poeira... Digo isso pois estou intrigado há dois dias com uma obstrução nasal incômoda e aparentemente sem causa. Na casa de uma amiga durante o fim de semana eu me perguntava que raios era essa coriza. 
Obstrução! Esse é o significante. A memória extirpou tudo, lavou os lençóis, jogou as coisas dela fora, proibiu a família de tocar no nome. É a vacina da psique. O vírus não vai matar, não vai ferir tecidos, não vai prejudicar seu organismo. Mas, ele vai produzir efeitos. No caso da gripe, vai produzir uma constipação. Psiquismo constipado. É isso! Você apagou as lembranças boas e as boas coisas. Fez faxina na casa, apagou o telefone dela do celular - apesar de lembrar de cabeça -, não escreve mais canções pensando nela, etc, etc, etc. Mas, você está constipado! O vírus não existe mais, mas está constipado de poeira, constipado pelas pequenas partículas, pelas pequenas lembranças, pela saudade, pelas coisas que você não quer mais dizer e nega veementemente - como se a cura fosse não dizer que os sintomas existem. Constipado! Entupido, travado, barrado, impedido. A poeira dos carros, da rua, da construção da esquina, do chão. A poeira dos olhos dela, a poeira das manhãs de inverno, das cuias de chimarrão na varanda, das noites em que dormíamos na rede, das piadas ruins, daquela tarde roubando goiabas, poeira das coisas que enfrentamos juntos e que, como toda poeira, se esvai com o tempo. Poeira incômoda como seus cabelos na minha cara pela manhã. Poeira, poeira, poeira. Preciso respirar, tomar fôlego e pôr o catarro pra fora e parar de mexer em coisas velhas, porque essa mania de livros antigos e saudade vai acabar me impedindo de respirar livremente um dia.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

É preciso fazer uma aposta.

O dilema é terrível quando precisamos tomar um caminho que não sabemos onde vai dar. É tudo tão mais simples quando as certezas estão dadas, quando se conhecem as ruas da cidade, quando se sabe o efeito que a ação A vai gerar no sistema Z. Contudo, há um campo onde o homem não sabe pisar sem afundar. São os pântanos do outro, o lodo do amor. Como nos vemos embaraçados. Amar à moda neurótica é vergonhoso! Nos enrolamos, contradizemos, iludimos e vivificamos o mais bruto, burro, a borda do nosso ser. "Ela não vai gostar disso!", "Por que estou agindo assim?", "Estou ligando novamente!", "Por que é que eu amo essa criatura desprezível?!" Não fazemos ideia, não é? Nascemos aqui dentro, compenetrados nos nossos mundos, nos nossos corpos, no nosso sexo e na nossa vontade de fazer valer a nossa vontade. Pensávamos nós que não poderia haver nada mais óbvio do que o fato de que sabemos a respeito daquilo que somos. A primeira ilusão do homem é a ilusão do "si mesmo".
Chega a ser cômico quando nos olhamos de fora, embasbacados... Como, quando criança, nos olhávamos no espelho e a despeito da língua pensávamos: "Isso sou eu!". Mas, que diabos é isso? É vendo na incompreensão do outro nossa estranheza que nos deparamos com o pior de tudo: o amor não nos angustia pelo outro, nos angustia por nós mesmos. A fantasia de compreensão, de existência da relação, do encontro, é extasiante. Porém, pobres de nós, nós de podres cordas amarram nossas certezas e elas se desfazem derrubando-nos do alto do nosso "Eu", do nosso cavalo branco capenga e estropiado. Amar é precisar apostar na satisfação, na felicidade, contudo, pra isso é necessário ser desajuizado o suficiente para não entender, para não compreender, prender, aprender ou ensinar. Pra amar é preciso sentir e pra sentir é preciso ser humano. Pra ser humano é preciso ser falho, bobo, passar vergonha, ser ridículo e não saber o que dizer. Pra ser humano faz-se essencial amar. Pergunto-me quantos humanos de verdade eu conheço...