quarta-feira, 25 de junho de 2014

Fogo fátuo

Havia um pouco de sossego naquela tarde. O sol estava banhando as colinas, fazendo as honras do cair da noite. No alto de uma delas podia-se ver uma velha casa. Pra quem morava naquelas bandas a casa era como uma rocha antiga, comparada em idade somente ao cedro gigantesco que se debruçava sobre o seu telhado. O velho não saía de casa. Bebia feito um gambá. Nunca se viu ninguém com tantos anos sem tomar uma só dose dos pressagiadores remédios dos médicos. Tomar era algo que fazia, tomava tantas cervejas que já ninguém mais sabia se ele era senil, idiota ou apenas bêbado.
Ficar velho no interior de qualquer lugar é enfadonho. As pessoas do interior são tomadas de um punhado de misticismos e bobagens que fazem da realidade delas algo quase como uma lenda. Os velhos são lendas. Sim, são lendas e, como tal, não devem desfazer-se de seu fardo mítico. Eles precisam ser velhos, tão velhos que pareçam sábios, mesmo tendo sido imbecis a vida toda. Acho até que algo acontece quando você passa dos oitenta anos... Não sei, é como se Deus descesse do céu e olhasse para aquela insuportável figura enrugada e sem perspectiva de vida. Com olhos ternos Deus deve dizer: “Você já adubou a vida das pessoas com toda a sorte de merdas que conseguiu soltar por essa boca. Ah, se eu me lembrasse de ter feito esses homens menos imperfeitos e mais próximos de mim. Eu jamais erro, contudo, às vezes caduco. Mas, voltando ao trato da tua sorte, infeliz criatura... Já eternizou mentiras que agora podem ser justificadas por tua improvável senilidade. Farei de ti um sábio! Vais ter a graça de fazer alguns reparos na tua existência. Não hei de querer criatura como tu no purgatório. Se prolongaste tanto teu viver certamente deixaria meus carrascos da terra média entediados de tanto afligirem-te por teus pecados.” Acho assim que os velhos conquistam certa serenidade quando chegam a essa idade, talvez fruto da sua incapacidade de correr ou fazer qualquer coisa com rapidez. Só se pode ter calma quando não se consegue correr. Tudo na vida do velho é lento; os dias passam lentos, ele esquece as datas, as horas, o tempo parece ser algo que já foi esquecido, vencido e apagado. Não era difícil ver o velho atordoado perguntando aos passantes que dia era aquele que lhe parecia uma segunda, mas que pensava também ser domingo.
Mas saiamos das divagações e voltemos para nosso velho indivíduo... Como disse, o velho morava em uma casinha pequena toda judiada pelo tempo e pelo particular desleixo de seu ocupante eremita, bebia como quem quer terminar com a cerveja antes de morrer – creio até que ele jamais morreria antes de terminar uma garrafa -, tudo o que fez durante sua vida foi tropear gado e roçar os campos da fazenda que agora contempla de longe. O patrão foi honesto: deu-lhe um canto de terra por seus muitos anos de trabalho. Admira-me muito que alguém que tenha trabalhado a vida toda não tenha conquistado se quer um canto para encostar-se à sombra, como ele mesmo diz. Não é de estranhar que o velho seja tão calmo, provavelmente era um escravo dócil ou apenas alienado mesmo. É incrível... O imbecil fala, toda vez que consegue achar algum infeliz com paciência para suas divagações, que “o pobre deve aninhar-se embaixo de uma árvore folhada, menino!” A vida passa oitenta anos tentando jogar na cara do infame que estava sendo explorado pro deleite de um outro que é tão estranho ao fruto do seu trabalho quanto é estranho o ovo do chupim no ninho de qualquer passarinho, e ainda consegue dar graças aos céus pela mão que lhe cerceou a estrada toda do viver, como se essa mão lhe tivesse salvado da desgraça, desgraça essa que, no máximo, seria a incerteza e a graça de poder lutar pra ser aquilo que se quer. È impressionante como as pessoas preferem viver infelizes a batalhar o próprio destino. Sempre tive vontade de dizer ao velho que o trabalho que tinha na fazenda foi o que ele escolheu pra vida pra não se dar ao trabalho de trabalhar por si mesmo e em nome de algo. Que se tocou gado a vida toda deveria ter aprendido antes a tocar o seu próprio andar. Mas, o coitado mal pode com as próprias palavras ébrias que lhe escapam entre os dentes, completos estranhos de tão distantes que vivem um do outro. Assim, me limitava a ouvi-lo e gritar algumas palavras que ele pudesse ouvir, apesar de sua surdez e sabedoria em ouvir só o que lhe convém, para seguir com seus causos de velho. Foi num desses monólogos que o velho me contou uma história que não sei se tomo por carraspana ou só ignoro como fruto da incapacidade de inquietar-se de uma mente. De qualquer forma, a história se segue...
- Tem coisa, nego, já dizia um homem santo que conheceu a finada minha mãe, um homem chamado João Maria... Tem coisa que Nosso Senhor colocou no mundo e que o homem não conhece! Uma noite dessas, uma noite fria que fazia tremer só de lembrar quando a gente dormia nas palhas de milho – eu fui criado que nem porco piá! Que nem porco! Numa noite fria dessas, eu fui fechar a porta do galpão lá fora e quando estava voltando vi no céu uma luzinha que dançava pela noite, como esses vagalumes grandões que pintam a madrugada e alimentam os passarinhos pela manhã.
Até aqui eu estava, como todos os dias, entediado. Eu sabia que jamais aquele velho caduco iria esquecer aberta a porta do galpão à noite, porque ele guardava umas quinquilharias lá dentro que tinha na conta de tesouros. Sabia também que ele entregava a alma ao diabo pra não sair de casa durante a noite. Um homem maduro que dorme com as luzes acesas só podia ter medo até da própria sombra. Mas, como sempre, eu seguia ouvindo, hora tomando tudo por mentira desinteressada, hora pensando em que diabos seria essa luzinha de que ele falou – eu costumava ficar procurando os nomes corretos pras palavras tortas do velho, como se eu soubesse mais do que ele mesmo a respeito do que ele dizia... Quem me dera...
- A gente não pode julgar as coisas sem saber, né piá? A gente não sabe nem o que tem nas tripas! E eu fui de volta pra varanda devagar – eu estava tão assustado que nem sabia se olhava ou se fechava os olhos. Aquela luz foi crescendo. Pairava e dava voltas no ar. Meus olhos já não são bons, nego! Mas eu forcei um pouco a vista e deu pra ver que aquilo era fogo! Fogo, piá! Fogo no meio da noite dançando pelo cemitério...
Subindo a primeira ladeira pra cima de onde morávamos havia um cemitério. Era um lugar sem vida - adiantando o chiste usual. Regularmente subia lá. Minha avó havia sido enterrada lá. A velha nunca fez questão de esconder que odiava continuar vivendo. A caduquice e sua natural falta de educação já mascaravam sua aversão pela vida há anos. Quando morreu só deram por falta de um corpo vagando e colhendo amendoins pela roça. Contudo, a história do velho, como todas as que ele contava, começava a me deixar inquieto: ele não sairia de casa a noite, isso já é fato; contudo, acreditar, não obstante, que ele tenha visto algo como um fogo vivo no cemitério já era demais pra minha boa vontade e escuta indiferente.
- O fogo subiu piá! Ele dançava por cima da casa do vizinho ali da frente. Aquele fogo bonito! Sabe guri, eu tenho medo daquele fogo há muito tempo. Mas, foi a primeira vez que sentei na varanda e fiquei olhando pra ele. Eu via o fogo correndo, brincando feito um lambari em riacho limpo. Quando a gente fica velho a solidão toma conta da gente piá! E eu nem tive medo. Ela tá enterrada lá!
Pela primeira vez na vida eu via aquele velho impertinente falando de algo que era seu. Falando da sua velha, da sua amada, da companheira que passou a vida ao seu lado, criando seus filhos, tirando os bichos de seus pés, fazendo sua comida.
- É guri! O fogo passeava por lá e eu sabia que era ela. Me correu um ar na espinha piá! Era ela no fogo, no ar, no barulho das árvores. Era ela tentando me dizer pra não morrer antes da hora e pra continuar tomando minha cerveja. Era ela me lembrando de que eu não abro a porta do armário dela há anos; era ela dizendo que não esquece de que escolhi viver sozinho do seu lado, soprando o fogo pelo ar como soprou a vela do nosso único bolo: nosso bolo de casamento, ela correndo pelo vento como corria na fazenda, com o cabelo solto, gritando e rindo, sem se importar com a sujeira nos seus pés sempre descalços, sem olhar para a chuva que vinha. Era ela guri! Como ela era linda!
O velho pareceu estranhar suas próprias palavras, pagou a cerveja que havia pedido e saiu com o saco do gole embaixo do braço.  Surpreendi-me um pouco com o velho. Não achava que gente velha podia amar assim. Não achava que homens criados tão rigorosamente, tão friamente, podiam sentir um frio na espinha lembrando de contos passados, de amores que o tempo levou. Espantei-me com o velho, espantei-me com a história, com seu jeito de falar e de sentir. Espantei-me com a capacidade singela de um homem amar uma mulher.
Ele subiu a ladeira de sua casa. De longe eu via o velho abrindo a porta do galpão empoeirado. Sentou. Abriu a cerveja. Os cachorros se aproximaram. Ele tocava os bichos; com certeza xingava aqueles agourentos. Ele não dava mais conta de ser velho, mas teimava em viver, pois a vida lhe foi boa.



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Se eu encontrasse a moça que escreveu "A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer"

Bom, diria eu que gostaria sim que ela (uma mulher) trabalhasse muito, pois eu não acho saudável que alguém fique totalmente desocupado e não gosto de pagar a conta sozinho; quanto a sua caixa de emails eu não tenho nada a declarar. Não quero que seus pés tenham calos e bolhas porque eu acho uma atrocidade uma mulher usando um sapato que vá machucar seus pés e sua coluna e porque eu sou baixinho demais pra sair com uma mulher com salto 15. Ela deve ser independente e fazer o que quer com o próprio salário, sim. Acho meio esquizofrênico comprar uma bolsa cara e doar para um projeto social, acho que isso é digno de nota. Precisa saber dirigir e ter vontade de viajar pra muitos lugares. Acho que ela precisa saber cozinhar se não tiver grana pra comer fora todo dia, do contrário é dispensável. Ela não precisa ser sarada e nem se preocupar muito em pentear o cabelo, nem gostar de ir ao salão (ah, deus! Como eu gostaria que ela não gostasse de ir ao salão!). E, acima de tudo, tem que ser sim segura de si e não precisar de mim nem de ninguém.
Enfim, dito isso, eu diria pra essa moça que ela não me interessa. Sim, não me interessa. Porque creio que para o mais importante algo lhe falta; pra ser bem resolvido é preciso resolver o enigma entre o eu e o outro. É preciso que pare de queixar-se da sociedade, dos homens, da maioria dos homens - aliás, não é a maioria que lhes interessa pelo visto, então, foque-se nas minorias em vez de queixar-se sob o silêncio da belle indiference  histérica. A culpa e a responsabilidade de todas as queixas do mundo é sempre do outro, do marido, da mãe, do pai, do filho, da vizinha, da outra... Assim é difícil de ser bem resolvida! Como vai resolver àquilo que não lhe cabe? Como vai acertar seus passos se anda a passos de outros?
É lindo quando a pessoa sabe diferenciar independência de solidão. É mais lindo ainda quando consegue admitir suas impotências, porque é só nas nossas falhas, nas nossas faltas, que há espaço para que alguém entre. Em alguém que se basta não cabe mais nada. Não dá pra ver isso nesse artigo tão fálico. É uma mulher gabando-se de ser aquilo que não quer? De ser o que lhe fizeram? Sartre nos ajude, por favor: "O que você faz com aquilo que fizeram de você?"
Creio que todos os homens, mesmo os machistas e abobalhados (a grande maioria), que leram esse texto viram-se indefesos diante de tanta auto-suficiência (ok, fui irônico!). Sociedades sempre existiram, pessoas sempre sofreram de amores e sempre usaram sociedades de desculpa. Há que se ter responsabilidade por aquilo que se é. Se você, digníssima blogueira, quer um homem que não quer algo que você não é, procure alguém que queira aquilo que você é!
Sabe, alguns de nós homens não gostamos de carros, alguns de nós não assistem futebol, não arrumam empregos bem-sucedidos, não gostam de sair com prostitutas. Alguns de nós gostam de mulher que xingue, grite, beba e nos faça rir. Não, nós homens não precisamos lhes ganhar de volta, porque nós não precisamos mais ganhar ninguém. Hoje, cada um anda ao lado daquilo que quer e voa pra onde bem entende.
E por fim: concordo, os pais criam filhas para o mundo e querem noras que fiquem na família. Meu pai me criou pra ser peão, não o fui, muito pelo contrário. Eu não o culpo por isso e não o responsabilizo por minha inadequação ao mundo. Cabe a cada um aceitar a própria estranheza e não queixar-se ao mundo por não entendê-lo.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Estou enganado

Na primeira vez
Em que tentaram me enganar
Eu corri na praça
Com suas tripas a sangrar

Na outra vez
Que ela quis me ludibriar
Eu me fiz de santo
Pra proeza alguém notar

Na penúltima vez
Que na sorte eu fiz minha fé,
Por querer experimentar,
Minha vela foi maré

E dessa vez
Em que nada pôde dar certo
Porque do acaso
A sorte mora mais perto

Eu sorri feliz
Pois encanto é o arregalar
Dos olhos. Eu, que tanto quis,
Agora posso me soltar

Da última vez
Em que tentaram me enganar

Ora, me enganaram.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Controle de que?

Estão todos tão implicados, tão implicantes, tão politizados, polidos, astutos e maduros. Um punhado de palavras isso... um outro punhado de emoções nisso. É tanto partido, é tanta opinião, é sociedade demais, é controle demais. O que mais vejo todo dia é gente dizendo "Eu não consigo controlar isso!". Mentalmente eu me pergunto: "quem foi que lhe disse que isso precisa ser controlado?"
Todo mundo quer um mundo perfeito, faz planos, estuda, trabalha, rala pra caramba. Todo mundo é muito infeliz. Porque todo esse esforço, todo o mérito que incessantemente cobramos da vida - "Mas, eu mereço isso! Eu fiz tudo certo!" - não passa de vertigem, de uma bela ilusão que se desfaz no primeiro lampejo de realidade. Não, melhor. No primeiro lampejo de verdade. Pois é só saber um pouquinho da verdade, do porquê disso de controlar, de trabalhar, de ganhar grana... só saber um pouquinho disso, pra tudo se esvaziar como um vaso trincado.
Já dizia o psicanalista "felicidade não é bem que se mereça!". Entender o acaso, o caos determinístico, o vazio de ser e de ter é terrível. Saber que não se tem o controle, que nunca se terá, que ninguém nos dará esse prazer... Pode parecer pessimismo. Não sei, acho que é só a vida.

domingo, 1 de junho de 2014

Fim de julho

Levantou ainda meio atormentado. O sol brilhava meio desconfiado na janela. Pendemos pros lados do fim do inverno. É julho. Um café passado correndo, um doce qualquer da geladeira e bandeou para o trabalho. A vida era dura, mas o fim da adolescência já o havia ensinado a ver o dia bonito e achar as coisas belas na vida mesmo quando tudo por dentro estivesse podre e cansado. E como estava podre neste dia. O pior de tudo era o bem e o bom que continuava vendo. Seus olhos marejavam – ele pensava que de frio, ou se enganava bem – por ver felicidade no rosto das pessoas. O pior era isso. Sabia reconhecer felicidade; ele a bebeu aos baldes. Sabia da fonte, conhecia suas manhas, seus jeitos, suas expressões faciais. A felicidade escorria pelas bordas da cidade numa manhã de julho. Como é triste ser triste quando o dia é feliz.
Os dias no trabalho passavam e o fim de mais uma etapa chegava rápido. Entretanto, ele continuava a pensar no que errou... Ela era tão linda, tinha olhos tão meigos, um jeito tão burro. Sim, era uma beleza burra, uma beleza anencéfala e semialfabetizada que cansava aos ouvidos, mas não aos olhos. Homens! Comem com os olhos e lambem o resto todo. Lambem, beijam, mentem, confundem e se deixam confundir. Ele sabia que a culpa era sua. Ele sabia que não devia ter olhado nos olhos da medusa, sabia que ela o atrairia para si, para a quintessência de si, para o meio do corpo, o meio das pernas, o meio da vida, o meio do nada. Um deserto de piadas ruins e músicas extenuantes.
Passou a primeira esquina de sua casa. Um escritório de advocacia, um cachorro que parecia um animal de circo, de tão grande, ladrava como que querendo matá-lo.
- Ah, vá se foder bicho maldito!
Ele já sabia que, no estado apático em que estava, o animal poderia estar comendo sua perna que o máximo que faria seria novamente mandá-lo a puta que pariu.
Lembrou: ela tinha um cachorro! Era um animal velho e que logo morreu. Só lembra-se dele por piedade. Pensou em como ela amava, em como era sua forma de apreender o outro, seja ele um cachorro ou um homem (quando um encanto termina a mulher não distingue muito bem esses dois gêneros animais). Ela era fria. Ela gostava do cachorro quando podia dizer dele pra alguma visita que entrava em seu apartamento sujo e sem vida, com pinturas foscas e abstratas nas paredes das quais ela nunca soube dizer nada.
Agora o pego chegando ao terminal rodoviário – tinha que passar por ele pra chegar ao trabalho e sempre ficava pensando em toda sorte de gente que podia encontrar por ali, uma cidade grande tem de putas a santas em suas rodoviárias. Está cabisbaixo. Há um casal de quero-queros por ali. Está pensando em quão idiotas são os pássaros. Eles amam! Pior que isso... eles amam de verdade. Quem dera tivesse sido tudo de mentira.
Agora chega ao trabalho. Os olhos já escorreram um pouco, o nariz faz um barulho engraçado que, de dentro de sua cabeça, parece muito mais estrondoso. Triste. Já chorou o que tinha. Já cansou daquela cadela, daquela ave traidora, daquela puta mercenária. Nunca mais vai amar. Está decidido. Não importa quão triste fique, quantos cães tenha que comprar pra lhe fazer companhia, quantas vezes tenha que ouvir aquela canção do Pink Floyd; sem mais ilusões. Neste momento entra Cristina.

- Puta merda... que pernas – pensou.