sábado, 31 de maio de 2014

O buraco é muito mais embaixo

Ser pudico... O fui por um bom tempo. Fui um punhado de outras coisas que não sou mais também. Já fui cristão, já fui ateu, já fui cabeludo, já fui moleque do cabelo lambido, já fui favela, já fui tanta coisa... Fico aqui olhando, pensando: como as pessoas se assustam com o sexo, com a sexualidade, com as traições, com as desonestidades. Congelo ao imaginar que ninguém faria questão de falar disso se isso não lhe fizesse questão.
-"Ah, mas a novela da Globo, esse mês tá horrível! Uma afronta! Onde já se viu aquele cara fazer tudo aquilo e não ser punido!"
Pra esse bunda mole bajulador de padres e mães eu mentalmente digo: https://www.youtube.com/watch?v=ssC77hapv0g
Como disse, eu já fui um desses. Sei o quanto é ruim aceitar a verdade às vezes. É muito mais fácil reclamar igual uma mulher traída. Aliás, nossa! Como existem homens e mulheres traídos... Traídos pela promessa de uma vida feliz, traídos pelas palavras, traídos por si mesmos e pelos outros, traídos pelo beijo que deram e não contaram à esposa, traídas pelo papo furtivo com as amigas, traídos pelo papo sobre prostitutas depois do futebol, traídas pela capa da revista que anuncia um homem sem pelos, sem caspa, com barba perfeita e peito robusto... até mesmo traídos pelo anúncio do "aumente seu pênis!" (promessa desonesta pra se fazer a um homem).
Traídos... A-traídos! Tentador!

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Cama de gato e o quanto ficamos bobos

Dia frio. Vou com um casal de amigos comprar a cama para o meu gato. Eis que chego na loja e vejo o vendedor desconsertado por eu não saber o sexo do animalzinho que ainda vou receber. Imagino o que se passa em sua cabeça:
- Como alguém pode não saber o sexo do animal?!
Ele ri. Todos rimos disfarçadamente; eu por embaraço e ele por piedade, imagino.
Argumento:
- Eu ainda não sei, mas não creio que ele vá se importar se a cama for vermelha!
Engulo isso e saio remoendo, como sempre faço. Aí me pego pensando: eu realmente tive uma preocupação com a cor da cama do gatinho? Ele rói a ração agora enquanto escrevo e pareceu bem chateado quando mexi na cama dele pra ver se estava tudo bem. Senhor vendedor, meu gato adorou a cama! Sua sexualidade não foi questionada e ele não se sentiu ofendido.
Eu já pensava em ter um animal. Sabia que um bicho roendo meu sofá e sujando meu chão ia me tirar um pouco desse mundo perfeito de coisas no lugar. E é o que tem feito nessas últimas horas: tirar do lugar.
Volto: ficamos bobos. Sim, ficamos bobos e infantilizados. Discutindo com uma amiga - que teria honras pra ser mais bajulada por mim, mas gosto tanto dela que ignoro seus títulos -, as pessoas crescem, os cabelos e as unhas crescem, os pelos aparecem, a barba cresce, o cabelo cai e o rosto enxuga e continuam no velho jogo do fort da, esperando o retorno, o retorno que não virá, o retorno que garante a certeza de que o encontro acontecerá, o encontro, a identificação e a plenitude de uma vida completa e coerente. Mas, isso não virá, porque o mundo não é belo e nem feio e muito menos justo, os gatos não ligam pras cores e não sofrem se forem homossexuais. Não há coerência e, se há algo que sei, é que não se sabe de nada a não ser de si, e isso já é muito. Qualquer antigo permafrost pode acabar com o mundo, mas, coitado, chegará atrasado na vida de algumas pessoas.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ama-me, ama-te, mate-a!

"Ama-me, mesmo sabendo que eu faço tudo para não ser amado e para destruir-te."
Leio isso como que por praxe. São tantos textos sobre psicanálise que às vezes uma frase é só mais uma frase. Contudo, esse texto era especial... falava sobre a vontade de dominar, do desejo obsessivo de estabelecer controle sobre o desejo do outro, anulando-o. Como um pai que não pode suportar a ideia de um filho inquieto. Como um amante destruído pelo espaço de amar.
"Cale-se! Como se atreve a desejar algo que não me cabe, que não cabe em mim, que não cabe nos meus planos, na minha vida, no meu mundo perfeito de horas e planos, roteiros, rotas de fuga e fugas de ideias? Como ousa querer algo? Quem é você para escancarar-me aos olhos o quadro daquilo que não sou? Você! Logo você que nem me dá o que preciso, que nem me olha nos olhos, que nem me diz como ser! Logo você que não me serve de medida, que está sempre precisando de consertos e ajustes e não vê! Cale-se!"

sábado, 24 de maio de 2014

Cadela, espaço e mortes em família (sic)

Uma das noites mais normais. Um dia de estudo e gritaria. Como todo fim de semana que fico em casa. Meus vizinhos devem me odiar; que diabo de psicólogo sou eu que toca Matanza no violão sábado de tarde gritando pras paredes: "Eu não gosto de ninguém!"?. Contudo, hoje fiz o que não fazia há tempos: fui ao mercado com os fones de ouvido bem altos, não levantei a cabeça a não ser pra olhar pro céu ou pra moça não muito simpática do caixa. As ruas são tristes em uma cidade pequena no sábado à tarde... Os bêbados estão no bar, os universitários na rua com suas camisinhas no bolso, as senhoras de família em casa ou em alguma vizinha roendo milho de pipoca. Tudo muito normal. Claro! Normal pra eles... Meu mundo louco e beirando ao niilismo me deixa tão excitado com qualquer detalhe... lembro agora que li que a tendência quando se odeia algo importante é amar algo insignificante... Amo muita coisa insignificante; o som daquele bem-te-vi sem vergonha que ouço nas manhãs em que meu ouvido lembra dele, o pato da lagoa onde fazemos caminhada, a lembrança do som da sanfona do meu tio tristonho e brincalhão com o qual tenho muito medo de me parecer; amo poder olhar pras pessoas e saber que sabem tanto quanto eu, ou seja, porra nenhuma!
Mas, a vida delas é mais comum... até meu sábado de tarde acaba virando uma conversa doida e nonsense com uma guria cyber-conhecida muito interessante sobre nossos complexos, sobre zoofilia, taras infantis, espaço e matricídio. Como é bom ser como sou e ter os amigos imbecis que tenho! Relendo isso, que bom que tenho amigos, porque eu realmente não gosto de quase ninguém...

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sobre o desejo e o que minha cognição é capaz de processar de filosofia e psicanálise

Dizia Sócrates, - ou melhor, não dizia: questionava inapropriadamente -  em "O Banquete", que quem é forte não tem motivo para querer ser forte. Ninguém deseja aquilo que já tem. Não se pode querer comer logo depois do almoço. "Não somos carentes daquilo que já somos".
Os velhos malucos da Grécia chegavam então a pensar que Eros, o deus a quem se dedicaram a fazer o elogio estando bêbados e excitados, leva a desejar aquilo que ainda não se tem. Sejamos mais claros: o amor é demanda daquilo que não se tem, do indefinido e do incerto (o que, pra bom obsessivo, é o mesmo que dizer que o amor é um apelo à burrice, já que incerto escande-se "in-certo" = errado, e eu não suporto a ideia de erro, enfim...).
Por infortúnio Agaton teria dito antes que Eros queria o belo e o bom. Infeliz, maldito! Sigamos... Eros, então, é eros (desejante) do belo. Se deseja-se o que nos falta, então, Eros não pode ser bom e nem belo, do contrário não desejaria o bom e a beleza.
Entro em paradoxo: o amor é belo e bom, e assim quer o que não está no âmbito do bom e da beleza, ou, quiçá, o amor é feio e ruim?
Ouvindo pessoas todos os dias começo a me perguntar... O dia começa sempre perfeito pra algumas pessoas, contudo, elas logo encontram um prurido, um incômodo, um cara no trânsito pra xingar, um trauma de infância pra relembrar, uma transa mal trepada pra reclamar; ou então o dia já começa uma desgraça, um tiro de escopeta no cu, uma cagada enfadonha, e a pessoa começa a se perguntar qual a causa de estar sempre cagada, sempre reclamando, sempre infeliz.
Penso assim que se amar é buscar o que é bom, é preciso primeiro que algo ruim, algo infeliz e feio aconteça pra que se possa amar alguma coisa. Dizia meses atrás, conversando com uma amiga muito mais que amiga, que as pessoas que nunca sofreram são um porre, e são mesmo!

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Where we go?

Bicho, cadê as boas pessoas desse mundo? Aquelas que realmente sabem o que querem e pra onde vão. Que sabem que a vida só é possível em dueto, em conjunto. Que veem o amor nas pequenas coisas, que dormem na varanda pra ver as estrelas, que sonham pequeno, que veem mais brilho na lua do que no ouro, que dariam tudo pra livrar-se do celular, do computador, do sapato apertado, que fariam tudo por um beijo ou por um simples calor de um abraço? Onde estão os loucos de Kerouac, os fugitivos da caverna, os cristãos de verdade - não os que tem fé em deus, mas os que dão a outra face? Se eu encontrar um desses passageiros da vida por aí espero reconhecer nos olhos dele a inocência da criança que ainda carrega no íntimo. Dessas pessoas que o mundo precisa: gente que se conhece, gente que ama de verdade, gente que se entrega, gente que aceita o que não pode mudar e muda o que não pode aceitar, que desenterra os mortos pra ouvi-los dizer adeus, que abandona quem não pode dar um abraço sem ser solicitado, que manda um amor embora quando ele não sabe o quanto é amado. O mundo precisa de nós meus amigos, da nossa tristeza em sermos como somos e da nossa alegria em sermos diferentes de todos! Obrigado por me provarem que a vida merece mais do que uma olhadela de canto de olho.

Ouçam...

Todo mundo sabe que eu não costumo rezar há alguns anos. Mas, depois de tudo, a um coração ateu cabe sempre uma prece: 
Que ninguém mais me tire a solidão sem oferecer em troca verdadeira companhia, como diria Nietzsche. 
Que não me roubem a paz!
Que não recolham todo o meu amor que demorei tanto para distribuir. Foram tantas casas em que passei, tantos olhares, tantos amores. Não posso mais pôr tudo em um único bolso.
Que não me tirem a paz. Sim. Novamente, não me tirem a paz! Não me deem a mão se não pretendem segurá-la firme. Que não entrem em minha vida os entraves, os gozos mortíferos, os plágios da canção da vida. Que me venham os fortes, os que fazem suas próprias canções, que cantam, que ouvem o canto do vento e do tempo. Sim, por fim ouçam o tempo. Costuma falar baixo...
Amém!

Os olhos mentem, eu, contudo, os amo

É numa noite assim que vc se pega envelhecendo... Sim, eu sei. Eu tenho só 22. Enfim, estou deitado sob a minha janela, a lua está um pouco distante dos meus olhos, mas a noite está linda. Sabe, eu já adoeci, já me curei, já enlouqueci e já sanei as dúvidas para tornar a duvidar. Bom, aprendi muito... Aprendi que não se pode salvar os outros daquilo que eles escolhem fazer com eles próprios; não se pode dizer o que vc acha que é certo pra quem não sabe o que é certo pra si mesmo; não se pode dizer eu te amo pra quem não se ama o suficiente pra entender do que vc está falando; não se pode parar de comer, de dormir, de viver, de beber, de sair por causa de um relacionamento. Eles vem e vão. Nossa geração está fadada à liquidez; é o que tem pra hoje! Aprendi ainda que mulheres tem olhos lindos, mas eles podem mentir muito bem se não forem adequadamente ignorados vez ou outra; os homens dizem muito sobre como agir frente a esses olhos, mas, na verdade sabem que são todos vítimas do olhar das donzelas indefesas que nos comem a própria fome. Aprendi, por fim, que amar é um erro grotesco, mas não um erro no sentido de pecado, de falta, de bobagem. Amar é um erro de raciocínio, um erro de cálculos, de medidas... Amar é errar por prazer, é dar-se ao luxo de ser insensato, inculto, bobo e parecer totalmente ignorante. Como pareci ignorante! Mas, fazer o que? Eram olhos tão lindos... Ah, aqueles olhos! Mentiam e faziam-me feliz! Será isso que chamam envelhecer? Entender que os olhos mentem e que gostamos disso...?

Vi os olhos, os olhos nunca me viram

Olhos de ressaca! 
Ébrios olhos 
órbitas fundas

Anel mudo na mão
Peito sem coração
cabeça sem razão

Que fizeste da tua vida
De que mausoléu fugiu
essa tua alma gélida?

Tu mesmo pintaste esse sorriso falso no rosto?
Tu que disseste essa frase mentirosa ou aprendeste das entrelinhas,
das entre línguas, das entre mentes que meu eu te deu?

Tu finges o tempo todo ou tua falsidade se distrai vez ou outra?
Tu sabes o que cabe em um peito
ou apenas atribui a todos os peitos o mesmo vazio que cabe no teu?

Tu, sim, tu foste tão crua, tão fria, tão nua...
Tivesse apenas sido nua... teu seio nu disfarça a nudez dos seus olhos!

Pro futuro, com certeza

Ah vida! Como tu és boa professora! Andar na rua de manhã, que era um martírio, um eterno retorno ao engodo, à pulsão de morte desvalida e paralisadora, tem sido o maior dos prazeres. Aqueles malditos passarinhos agora parecem borboletas na beira da praia dançando pra enfeitar o horizonte. Não me fiz maior, não me fiz mais forte, não engordei e a academia foi um projeto falido... Mas, eu cresci! Eu liberei um mundo simbólico aprisionado pelo gozo masturbatório de um amor inventado. Eu venci o bloqueio da minha liberdade, a mentira que contei pra que pudesse conviver com o fato de que eu sonho com coisas idiotas, que meu mundo é idiota, que minha vida é idiota e que tudo o que eu posso fazer dela é mera idiotice... Mas, é a minha idiotice, é o meu jeito de ver o mundo, meus olhos que lacrimejam de manhã por ver qualquer bobagem. Minha boca que entorta num riso compulsivo e calado por ver a idiotice dos outros da qual me permito rir apenas por não me pertencer. Viver é muito mais do que fazer o que se manda ou o que se sonha, viver é engolir a sorte e o acaso como quem toma um trago de cachaça pra aguentar o batente, é espalitar os dentes com o que sobra dos seus próprios ossos quebrados pelo tempo e pelos outros, já que só nos resta juntar os pedaços e utilizá-los de forma positiva. Porém, depois de tudo eu não poderia deixar de ter um orgulho, de afirmar meu narcisismo: tudo o que vivi foi de verdade! Os choros, as brigas, os xingamentos e socos nas paredes, as tentativas de retorno a um passado escorregadio e já não tão atraente. Tudo verdade! E quem viveu tudo de verdade no passado só pode olhar pro futuro com certeza!

Engraçado

Engraçado
Engraçados são os dentes
Eles sorriem
Amarelam o semblante.
E quando se escondem 
Eu sei o quanto querem sorrir!
Um sorriso nunca é perfeito
Mas, sempre tão engraçado.

Fique longe de mim

Se vc realmente acredita que as pessoas são negociáveis, que a letra daquela musica idiota que todo mundo gosta de dançar faz sentido, que viver é entreter a morte com brinquedos, quando se é criança, com carros quando se é homem e com a solidão e o gozo de dizer-se doente, quando velho. Se vc está entrando na média, considerando-se parte desse todo néscio e raso... se vc é um desses... fique longe de mim!

Há algo de ridículo no amor...

Amar nos torna patéticos... ou vc sorri da sua falta de desenvoltura em mostrar-se amante, ou não ama por medo do ridículo.
Amar nos torna pensativos e inquietos... nada lembra mais o homem da sua debilidade do que amar... o próprio sexo é tão renegado não pq é contra os costumes, a religião ou a moralidade humana, mas, pq nos coloca diante da pergunta sobre nós mesmos: quem apresentarei a este outro que sinto me faltar, apesar de nunca ter me sido propriedade? Esse outro que, se possível, deixaria tão longe de mim quanto se deixa o fogo longe das mãos... O amor se faz virtude qndo nos joga nas entrelinhas de nós mesmos... mesmos nós...

Não. Não basta!



Não basta um belo sorriso
Não é suficiente um olhar tranquilo
Não me completa o seu bom gosto
Tuas palavras pesadas em quilos

Não me faz melhor tua pele alva
Não me envolve em paz os teus conselhos
Não quer calar esse anseio
Mesmo sem rugas em teu espelho

Não preciso mais de tua voz
A minha, rouca, já me basta
Não quero que me ligue
Para atrapalhar a minha insônia

E já não quero métrica
E que o diabo leve a rima
E, Deus, se morar mesmo no Éden
Saiba que não me bastará estar aí em cima!

Obsessão... obsessão... obsessão

E o pior é saber que tenho uma vaca na cabeça. 
Pensando bem, tenho várias vacas na cabeça...
Primeiro tenho AQUELA vaca na cabeça, é, aquela... enfim
Depois tenho a vaca dos meus pensamentos ruminando, remoendo, regurgitando...

Chuva é o som do útero da mãe-terra

E se a chuva continuasse, infinda? Se esse som uterino de vida entrando pela janela fizesse um eco eterno nos meus ouvidos? Já faz horas que ressoa a água no piso. Ressoa, faz ressalva, reaviva a alma, anima. Sempre penso que a chuva deve ter algo especial, diferente... uma tarde fria de verão em volta do fogão à lenha talvez? Aquele beijo desajeitado no começo de uma noite de dezembro? Um cheiro de poeira molhada? Um guarda chuva quebrado? Uma blusa colada nos seios? O que é a chuva? Por que ela faz do espírito um doente dos nervos em transe? Chuva... nervos... transe...

Sobre fevereiro de 97

"Era fevereiro de 1997. Eu tinha 6 anos. Que diabos eu ia fazer na escola? Eu tinha morado cinco anos no meio do mato, sozinho... eu não precisava fazer amiguinhos, eu odiava ver meus pais saírem pra trabalhar enquanto eu ficava naquele lugar horrível cheio de crianças estranhas que não gostavam de mim, tão somente pelo fato de eu respirar. Mas, os dias foram passando... chorar todo dia já estava cansativo... Então, vinda de algum canto escuro, alguma sala distante - porque quando você tem seis anos tudo é distante - surgiu ela... era uma guria feia, com uma mancha estranha do lado do rosto, diziam que ela tinha sido picada por uma aranha. E, então, tudo o que eu me lembro é que era bom ir para aquele lugar chato... A mulher! Ah, a mulher... desde os meus seis anos eu dou um jeito de suportar a vida com um espantalho com peitos e bunda, como se fosse um amuleto, como se quando o diabo viesse, quando a angústia pintasse o céu de cinza, eu balançasse uma mulher pelas pernas - no meio das pernas - e gritasse: "olha mundo! Seu porco nojento! Eu sou feliz! Eu tenho uma mulher! Mas, como todo amuleto um dia perde a força: caíram as mulheres... não me servem de nada! Não é tão mais fácil como antigamente espancar o demônio segurando uma mulher pelos cabelos... dói! Os dedos cansam! E como elas reclamam! Como falam, praguejam, injuriam... acho que o diabo fugia cansado de toda a belle indiference, de tanta histeria, de tanto desejo insatisfeito e tanto apelo ao desejo do outro... É um eterno "mimimi, eu preciso de mais!", "não era esse creme que eu queria!", "como vc não sabe o que eu gosto!", "me conquiste!", "não pergunte!"... santo deus! Isso não é uma mulher, isso é um tirano... foi isso que eu busquei: um tirano, um outro demônio que me importunava tanto quanto a angústia da solidão. Bom, eu sou ateu! Então, pros infernos com os demônios! Eles não vão mais defecar as suas leis na minha vida! Amém!"

Desçam do trono rainhas

Uma "coisa" sobre as mulheres... Parece que depois de cair do palco a bailarina só volta ao alto se tomada pela mão, pela mão do homem, pela mão ingênua e acéfala de um homem. Se um homem levar o coração até ela, não será um presente, será uma oferenda. Se um homem partir o seu coração será como heresia e sua fiança é o desamor, se um homem recusar os seus encantos, pobre apóstata, sofrerá os martírios de sua língua enferma. Se um homem ousar olhar pra outras pernas, outros bustos, outros olhos... pobre demente, resta-lhe a fogueira. Contudo, se um homem atrever-se a amá-la... infeliz o dia em que nasceu, preferiria a fogueira. Frente aos encantos da mulher resta ao homem conformar-se, resta o resto, aquilo que de um outro deus ela trouxe e que ali permanece em seu peito como atávica amargura, como solidão despreocupada, desorientada e inexorável.

Ser chato, ser cheio...

Você percebe que está ficando velho e chato. Não, não por nada em especial; não tive nenhum insight, nenhuma epifania. Contudo, você percebe a idade, a maturidade ou a cafonice mesmo (use o termo mais ou menos ofensivo de acordo com seu desejo)... A velha história "case-se com uma mulher que tenha mais livros do que sapatos!" parece cada dia mais verídica. Outro dia, casualmente, de bobeira nesse mundo paraalucinado do facebook, entro eu no perfil de uma guria... me pego vendo os gostos em vez das fotos, as frases escritas em vez das tiradas prontas, etc. "Essa leu cinquenta tons de cinza e não se envergonhou de colocar nas preferências"; " Essa sorri em toda foto, mas eu sei que está bem mais feio por baixo dos belos dentes e da pele rosada!"; "Essa não controla a bendita língua!"... ai ai, tudo era muito mais fácil quando eram só corpos, fantasias e entregas gratuitas da sanidade nas mãos de uma fêmea. Bom, divago. Mulheres, mais de Fernando Pessoa, menos de Caio Fernando Abreu, por favor! Obrigado!

Lascívia

Os olhos dela empenhoram
emprestam ao corpo
outros olhos que lhe olham

Os seios dela são ocos
de um vazio que quer tão pouco
Outro seio pra dar corpo

O nome dela não importa.
O homem dela é que lhe faz
ou mulher ou carne morta.

Seu lamento é falação
seu gozo é o não ter
Seu orgasmo é felação.

É mulher ou é o que?

Grana magra

Pra você que só pensa em grana
Eu só tenho um leve dó
Eu tenho até um pouco de nojo
Eu espero que termine só

Eu espero que tu entendas
Ou que vivas a cismar
E só pra arrumar contenda
Espero é que tu vá te ferrar!

Enche bem este teu bolso
Dessa calça de grife
Que vai desbotar a contragosto
Não importa o teu chilique

Enche bem este teu peito
Refeição de urubu
Olha bem esse teu jeito
Enche bem esse teu c*

Sobre direita e esquerda




E é o comuna bitolado
é o lado do bipolar
bosteando desolado
é o brado do barbado.

E é reaça de mentira
metendo sem gozar
é tiro, é tara, é tira
é touro solto no aglomerar

É tanta verdade completa
é a compra do nosso pensar
O peso a balança decreta
Pro lado que o gosto pesar