domingo, 30 de novembro de 2014

Domingo de tarde

Fins de semana em casa... Há tempos não me dava a esse lixo! Ser sozinho é uma consequência lógica do meu próprio ostracismo. Eu esqueci as velhas preces, os velhos costumes, os medos antigos. É tudo uma beleza. Lembro de quando comecei a dormir sem coberta, sozinho e sem luzes acesas. Foi assim que me senti logo que abandonei a igreja, o sonho de amor perfeito, a casa dos pais. É libertador! Mas, que bosta! Ser livre e ser sozinho são condições muito amigas. Essas duas putas caminham lado a lado, trocam telefones de caras que já pegaram e bebem juntas após cada novo suicídio.
Ser sozinho... Eu nasci no meio do mato. Só havia cães, galinhas, porcos e vacas. Eu era uma beleza de criança feliz. Mas, sem comer o fruto proibido, me tiraram o paraíso. Eu tinha seis anos quando saí do meio do nada pra viver na cidade. Até hoje eu ainda gosto mais da companhia dos cães do que de algumas crianças de seis anos. "Crianças são puras!" - diz o papa-hóstia acéfalo. Puras? Pelo amor do seu deus, amigo! Crianças tem autorização pra liberarem nossos instintos mais banais e mais horríveis. Demoram até pararem de morder umas as outras. Puras... Pff!
Mas, enfim, passar um fim de semana em casa sozinho me faz pensar... A cabeça começou a doer porque acordei tarde demais pra tomar um café forte e robusto. Malditos cereais! Os livros cansam depois das primeiras horas e eu não tenho TV, pra evitar que qualquer idiotia me puxe pra trás novamente e logo eu esteja ouvindo essa música maldita que toca no rádio e comprando cuecas da Calvin Klein. A tarde se torna mais tediosa, porém; minhas escolhas, minhas responsabilidades, como diria tio Ben. Escolhi ser solitário e é o preço a se pagar pra poder viver da forma como eu quero, ser feliz da forma como creio que é humanamente possível - como dizia Freud, passamos mais tempo da vida tentando não ser infeliz do que sendo felizes. Acho que o melhor mesmo seria uns bons dias no mato novamente. Horas de leitura de Lacan podem foder a sua mente! Mas, nada que um bom Bukowski não possa consertar. E, olha só! O velho bêbado despertou a ponta dos meus dedos novamente...

domingo, 9 de novembro de 2014

Que seja cansado da folia e não da ferrugem

Certos dias você apenas fica cansado. É até compreensível. É final de ano... Costumo ter uma ideia (dessas ideias incertas que você formula sobre si mesmo) de que não sou capaz de amarrar os cadarços em novembro como era em março.

Mas, enfim... Cansado de que, né? Cansado de um bocado de coisas. Cansado de sorrisos de canto de boca, cansado de pessoas que fazem a vida ser um faz de conta, cansado de manhãs curtas e tardes longas, cansado de livros teóricos (que saudade dos romances – parece que os devoro quando posso fugir do supereu), cansado de ser sempre tolerante e compreensivo – fico sempre me perguntando se já é o momento de mandar tudo aos quintos do inferno por alguns instantes -, cansado de hipocrisia e de gente careta e covarde, como dizia Cazuza, cansado dos velhos planos, dos antigos desenganos, cansado de repetir na mente, insoluvelmente, uma mesma imbecilidade como se a vida nos prendesse em um eterno retorno que entediaria até mesmo Nietzsche, que nunca quis tanto viver de novo pra ver se então fazia algo direito e ficava menos doente. Cansado, cansado, cansado. Um câncer, cansado, um cálice calado  e borrado de vinho barato. Ah, vida! Não preciso de férias, preciso de festa, de fogos, de fugas e folias. Qualquer excesso permitido é bem vindo, por hora. 

sábado, 18 de outubro de 2014

Posso falar com gente morta!

Sábado de manhã. Subo uma pequena ladeira. Porta idiota, sempre demora para abrir. Eu gosto de portas que eu possa abrir sozinho. Elevador... "É mesmo o terceiro andar?" Espero alguns minutos. Hoje não tenho nenhum livro, não há nenhuma novidade no meu celular, não tem como fingir distração quando essas mulheres, que já aparentam cansaço de suas vidas de filhos adolescentes e maridos de negócios, passam a minha frente esperando um olhar. "Porra velho, seu consultório tinha mesmo que ser do lado de um salão de beleza!?" - lembro de já ter expressado isso no divã... Passa uma mulher mais jovem, me olha, como quem espera um bom dia. Não digo. A quem chega cabe o esforço do cumprimento. Se o contrário for válido, dane-se.
Enfim, ele entra, a música relax, um copo d'água. Entro. Faço alguma observação estúpida. Eis o divã. Deito...
Morte, pais mortos, pessoas doentes. Meus pais estão velhos, tenho uma irmã pequena, me preocupo. Velórios, gente chorando. Nunca perdi ninguém. Estranhamente chego a falar de mudanças nas formas como meus amigos de pouco tempo atrás se comportam, falam, são.
Plástico... o termo se repete, não na voz, mas na cabeça - fujo da regra. Plástico sim, porque certos olhares e certos beijos foram de plástico. Mas, o que tem os mortos do assunto anterior com isso? São pessoas mortas. Nada mais morto do que o plástico.
Paixões, relacionamento que não deu certo. Sonho com nova garota. Ela é incrível. Difícil de ver, difícil de saber, difícil de se aproximar, fora do meu padrão. Mas, é fantástica. Chego ao ponto da minha inibição, minha dificuldade de dar o primeiro beijo, marcar o primeiro encontro, puxar assunto sobre o tempo com gente desconhecida. Meu pai dizia "não tem nada pra dizer, fica quieto!" (isso só me ocorre agora - certas coisas fogem do divã). Eu era sempre o mais silencioso, mais calado. Na adolescência eu falava, falava em excesso. Bobagens. Reclamações pululavam. As pessoas me odiavam. Pessoas mortas, pessoas de plástico. Eu também as odiava. Não podia falar com pessoas mortas, melhor ficar quieto. "Não posso falar com pessoas mortas!". Fim da sessão. Pago. Desço o elevador. Viro a esquina... "Não, eu posso sim falar com pessoas mortas!" - parece uma mera inversão. Caminho mais alguns quarteirões. "Bom dia, Dona Marli!". Aula. Logo estou discutindo política pública com alguém. "Estou discutindo com gente morta!". Fico feliz!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Blues noite

Ao som do blues
A vida divaga nas últimas horas
da última frase da poesia semanal

Sob o céu do sul
Resto eu, cansado de mais um vinho,
Inebriado por esse bem que fará mal

Um hematoma no copo.
As bordas silenciosas do vidro
Parecem queixar de sanidade

Copo coitado,
É aí espancado pela solidão
Enquanto eu só de beijar-te os lábios sou saudade

Faça-me insano
Só por algumas horas.
E que de pureza e sobriedade ninguém passe essa vida


Porque ninguém é feliz.
Sem poréns. Ninguém cantará
Se não for ébrio, perdido nas entrelinhas de suas feridas.

Boa noite.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O tédio dos cartoons

Coisas comuns entediam. A rotina é mesmo um inferno, uma morte em vida. Na infância era todos os dias os mesmos malditos programas. Decorei as falas de alguns episódios de desenhos animados e vivia pensando que cair de um prédio era algo muito repetitivo. Algo nos desenhos, contudo, era marcante. Não havia morte e eles morriam todos os dias. Carros passavam em cima do inocente Coiote que por algum motivo jamais pegava o transcendente Papa-Léguas. O pica-pau cometia crimes horríveis, atirava em pessoas, derrubava, jogava bombas, torturava e atormentava. Mas, não havia nada que uma nova chamada não perdoasse. Começava um novo episódio e os desenhos não tinham histórias, eram novos, eram os mesmos sendo outros. Eram os mesmos pois repetiam o opróbrio, mas eram outros, pois jamais pagavam por seus pecados. Todavia, não aprendiam com seus erros e novamente cometiam as mesmas gafes. Era rotineiro, tedioso, mas era sempre novo. Pobres cartoons, não têm histórias, não têm verdades.
Parece mesmo que a vida segue esse curso. Quanto mais repetições, menos histórias. Quanto mais pecados esquecidos, menos lições aprendidas. Imagine o tédio dos cartoons! Nunca haverá morte! Novamente virão episódios, vão encontrar novas bombas, novos tiros, novas tramas e artimanhas e nada vai mudar. O final vai ser sempre o mesmo velho bordão à moda do "that's all folks!", como uma indulgência fatal.
O dia-a-dia me faz sentir alguns "sujeitos cartoons" por aí. A vida, para estes belos fugitivos da morte (uns até falam em matar-se ou "morrer-se", vejam só), é um colapso de chatice, um "mais do mesmo" eterno. Vivem na certeza absurda, no campo do lógico, ou às vezes nem isso. Comem com suas bocas recheadas de dentes que brilham mais que os olhos, dizem verdades prontas, fazem piadas corriqueiras, gostam das vozes mais altas, das músicas mais fáceis, do pronto e acabado, do "vamos dar um jeito". Me vejo perdido às vezes. Por que diabos não podem enlouquecer? Por que precisam manter essa superfície obsequiosa que, sabe-se, está sempre na espreita do outro salvador e completante, do outro sufocador, do outro ladrão de bons sentimentos que lhe valerá uma queixa futura? Por que não podem simplesmente sentir as coisas prêt-à-porter, sem dar a essas mesmas coisas essa monotonia inexorável e triste. Sentir! É isso que os cartoons não fazem! Não dói! O caminhão passa em cima do Coiote e ele pragueja aos ventos, mas não sente nada, tem ainda a audácia de fazer caras. Cartoons e as caricaturas de si mesmo que vejo por aí. Parecidíssimos. Não morrem, não historiam, não vivem.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Será que sabemos dizer quem somos?

Quem foi o primeiro que te disse que essa maquiagem combina com os seus olhos? Você lembra aonde aprendeu a falar desse jeito? Sabe de onde veio essa mania estranha de acordar em cima da hora e não arrumar a cama? Você, por acaso, já pensou diferente do que pensa agora? Afinal, por que somos como somos? Ou, melhor, somos o que cremos ser?
O exercício da língua é o mais cativante de todos. É cômico ver as pessoas se misturando às palavras, se perdendo nos ditos, se fazendo significado dos seus significantes. É quase como se o dizer viesse antes do ser. "Não sei o que sou, mas posso dizer algo a respeito!"... Eis um efeito de abertura! Faz-se algo com o "si mesmo" e isso é feito por aquilo de mais banal que possuímos: a linguagem!
Quase todos os dias eu entrevejo a pergunta tácita e, às vezes até explícita do paciente: "mas é só isso? Eu só venho aqui e falo?" Invoco alguns recursos retóricos para não surpreendê-lo com o óbvio do "sim, é só isso!" Contudo, não, não é só isso! Sabe isso que você não diz? Esse núcleo escuro do seu ser que você vela como se cuida de um defunto, apenas esperando chegar a hora de enterrá-lo? Sabe essas palavras que você escondeu, que você esqueceu, que você perdeu e que lhe escaparam? Pois então! A linguagem lhe permite usar esse tácito, mostrá-lo ao mundo! Por desventura as pessoas medem as palavras. Medem quase que milimetricamente, como se o dizer fosse um bem precioso que não pode ser compartilhado... "Nossa, deus me livre! Vai que eles descobrem que eu tenho um desejo para além dessa minha moralista hipocrisia?"
Diga! Diga de tudo, faça as palavras lhe fugirem! Pareça insano e não adequado, bobo, infantil ou incoerente! Mas, diga! É por dizer, é por falar desesperadamente à moda dos loucos que Kerouac amava, dos loucos que moram em prisões, dos loucos que atreveram-se a dar a vida por um significado, a dar ao significante uma vida, que a vida passou a valer um significado! Diga, e algo se produzirá a sua volta: a verdade!

domingo, 17 de agosto de 2014

Não é gripe, é só poeira

Terminar um relacionamento é sempre um drama, uma novela (quem dera fosse poesia). É duro. Você vê os meses passando, as pessoas que você conhecia muito de perto mudando e traçando rumos diferentes para suas vidas; você mesmo já traçou tantos objetivos e mudou tanto que nem entende mais o que aconteceu e porque agia daquela forma antes. O tempo tem  um efeito amnésico muito interessante. Contudo, ele faz esquecer - à moda da memória infantil - o que é importante, mas guarda o que é trivial e pequeno. Um punhado de coisas pequenas, como partículas de poeira... Digo isso pois estou intrigado há dois dias com uma obstrução nasal incômoda e aparentemente sem causa. Na casa de uma amiga durante o fim de semana eu me perguntava que raios era essa coriza. 
Obstrução! Esse é o significante. A memória extirpou tudo, lavou os lençóis, jogou as coisas dela fora, proibiu a família de tocar no nome. É a vacina da psique. O vírus não vai matar, não vai ferir tecidos, não vai prejudicar seu organismo. Mas, ele vai produzir efeitos. No caso da gripe, vai produzir uma constipação. Psiquismo constipado. É isso! Você apagou as lembranças boas e as boas coisas. Fez faxina na casa, apagou o telefone dela do celular - apesar de lembrar de cabeça -, não escreve mais canções pensando nela, etc, etc, etc. Mas, você está constipado! O vírus não existe mais, mas está constipado de poeira, constipado pelas pequenas partículas, pelas pequenas lembranças, pela saudade, pelas coisas que você não quer mais dizer e nega veementemente - como se a cura fosse não dizer que os sintomas existem. Constipado! Entupido, travado, barrado, impedido. A poeira dos carros, da rua, da construção da esquina, do chão. A poeira dos olhos dela, a poeira das manhãs de inverno, das cuias de chimarrão na varanda, das noites em que dormíamos na rede, das piadas ruins, daquela tarde roubando goiabas, poeira das coisas que enfrentamos juntos e que, como toda poeira, se esvai com o tempo. Poeira incômoda como seus cabelos na minha cara pela manhã. Poeira, poeira, poeira. Preciso respirar, tomar fôlego e pôr o catarro pra fora e parar de mexer em coisas velhas, porque essa mania de livros antigos e saudade vai acabar me impedindo de respirar livremente um dia.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

É preciso fazer uma aposta.

O dilema é terrível quando precisamos tomar um caminho que não sabemos onde vai dar. É tudo tão mais simples quando as certezas estão dadas, quando se conhecem as ruas da cidade, quando se sabe o efeito que a ação A vai gerar no sistema Z. Contudo, há um campo onde o homem não sabe pisar sem afundar. São os pântanos do outro, o lodo do amor. Como nos vemos embaraçados. Amar à moda neurótica é vergonhoso! Nos enrolamos, contradizemos, iludimos e vivificamos o mais bruto, burro, a borda do nosso ser. "Ela não vai gostar disso!", "Por que estou agindo assim?", "Estou ligando novamente!", "Por que é que eu amo essa criatura desprezível?!" Não fazemos ideia, não é? Nascemos aqui dentro, compenetrados nos nossos mundos, nos nossos corpos, no nosso sexo e na nossa vontade de fazer valer a nossa vontade. Pensávamos nós que não poderia haver nada mais óbvio do que o fato de que sabemos a respeito daquilo que somos. A primeira ilusão do homem é a ilusão do "si mesmo".
Chega a ser cômico quando nos olhamos de fora, embasbacados... Como, quando criança, nos olhávamos no espelho e a despeito da língua pensávamos: "Isso sou eu!". Mas, que diabos é isso? É vendo na incompreensão do outro nossa estranheza que nos deparamos com o pior de tudo: o amor não nos angustia pelo outro, nos angustia por nós mesmos. A fantasia de compreensão, de existência da relação, do encontro, é extasiante. Porém, pobres de nós, nós de podres cordas amarram nossas certezas e elas se desfazem derrubando-nos do alto do nosso "Eu", do nosso cavalo branco capenga e estropiado. Amar é precisar apostar na satisfação, na felicidade, contudo, pra isso é necessário ser desajuizado o suficiente para não entender, para não compreender, prender, aprender ou ensinar. Pra amar é preciso sentir e pra sentir é preciso ser humano. Pra ser humano é preciso ser falho, bobo, passar vergonha, ser ridículo e não saber o que dizer. Pra ser humano faz-se essencial amar. Pergunto-me quantos humanos de verdade eu conheço...

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Canto para minha morte... (sussurro, talvez...)

Era uma guria de dezoito anos. Estava em qualquer lugar, não importa. Dizia da morte. Dizia que morrer não é surpreendente, que não é tão assustador e há que se ter em mente que se estará morto um dia e que todos irão morrer. A despeito da obsessão do pensamento dessa jovem eu me pegava compenetrado. Lia no jornal alguma coisa sobre acidentes de trânsito, mortes repentinas, tragédias, desastres e esses caprichos do acaso que nos levam aos discursos bonitos, aos epitáfios, às lápides. Na noite anterior eu estava indo pra casa e "coincidentemente" (o acaso realmente não existe) me pegava pensando na morte. Sei lá por quais cargas d'água meu pensamento me levou a esta associação... Mas, eu pensava: "não penso mais em morrer e não temo estar morto ou sofrer qualquer coisa! A morte não me pegará de surpresa. Não serei sua vítima, não se pode ser vítima se sabia-se dos riscos. A morte não encontrará em mim uma vítima. Quiçá, um cúmplice! Mas, que inferno! Já estou morto então? Pois, pra ser cúmplice da morte é preciso que saiba-se dos caminhos que ela traça!" Assombro-me.
E, esta noite, novamente... Essa guria, esse papo... Era uma adolescente revoltada, exatamente como eu, alguns anos atrás. É preciso que aceite-se a morte, então? Pra que se morra vivo ou pra que se viva morto? Engraçado... o papo logo seguiu pra zumbis, piadas, etc...
"Não tornará a ouvir o som dos meus passos!"
https://www.youtube.com/watch?v=u8RSb2B8mlE

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Fogo fátuo

Havia um pouco de sossego naquela tarde. O sol estava banhando as colinas, fazendo as honras do cair da noite. No alto de uma delas podia-se ver uma velha casa. Pra quem morava naquelas bandas a casa era como uma rocha antiga, comparada em idade somente ao cedro gigantesco que se debruçava sobre o seu telhado. O velho não saía de casa. Bebia feito um gambá. Nunca se viu ninguém com tantos anos sem tomar uma só dose dos pressagiadores remédios dos médicos. Tomar era algo que fazia, tomava tantas cervejas que já ninguém mais sabia se ele era senil, idiota ou apenas bêbado.
Ficar velho no interior de qualquer lugar é enfadonho. As pessoas do interior são tomadas de um punhado de misticismos e bobagens que fazem da realidade delas algo quase como uma lenda. Os velhos são lendas. Sim, são lendas e, como tal, não devem desfazer-se de seu fardo mítico. Eles precisam ser velhos, tão velhos que pareçam sábios, mesmo tendo sido imbecis a vida toda. Acho até que algo acontece quando você passa dos oitenta anos... Não sei, é como se Deus descesse do céu e olhasse para aquela insuportável figura enrugada e sem perspectiva de vida. Com olhos ternos Deus deve dizer: “Você já adubou a vida das pessoas com toda a sorte de merdas que conseguiu soltar por essa boca. Ah, se eu me lembrasse de ter feito esses homens menos imperfeitos e mais próximos de mim. Eu jamais erro, contudo, às vezes caduco. Mas, voltando ao trato da tua sorte, infeliz criatura... Já eternizou mentiras que agora podem ser justificadas por tua improvável senilidade. Farei de ti um sábio! Vais ter a graça de fazer alguns reparos na tua existência. Não hei de querer criatura como tu no purgatório. Se prolongaste tanto teu viver certamente deixaria meus carrascos da terra média entediados de tanto afligirem-te por teus pecados.” Acho assim que os velhos conquistam certa serenidade quando chegam a essa idade, talvez fruto da sua incapacidade de correr ou fazer qualquer coisa com rapidez. Só se pode ter calma quando não se consegue correr. Tudo na vida do velho é lento; os dias passam lentos, ele esquece as datas, as horas, o tempo parece ser algo que já foi esquecido, vencido e apagado. Não era difícil ver o velho atordoado perguntando aos passantes que dia era aquele que lhe parecia uma segunda, mas que pensava também ser domingo.
Mas saiamos das divagações e voltemos para nosso velho indivíduo... Como disse, o velho morava em uma casinha pequena toda judiada pelo tempo e pelo particular desleixo de seu ocupante eremita, bebia como quem quer terminar com a cerveja antes de morrer – creio até que ele jamais morreria antes de terminar uma garrafa -, tudo o que fez durante sua vida foi tropear gado e roçar os campos da fazenda que agora contempla de longe. O patrão foi honesto: deu-lhe um canto de terra por seus muitos anos de trabalho. Admira-me muito que alguém que tenha trabalhado a vida toda não tenha conquistado se quer um canto para encostar-se à sombra, como ele mesmo diz. Não é de estranhar que o velho seja tão calmo, provavelmente era um escravo dócil ou apenas alienado mesmo. É incrível... O imbecil fala, toda vez que consegue achar algum infeliz com paciência para suas divagações, que “o pobre deve aninhar-se embaixo de uma árvore folhada, menino!” A vida passa oitenta anos tentando jogar na cara do infame que estava sendo explorado pro deleite de um outro que é tão estranho ao fruto do seu trabalho quanto é estranho o ovo do chupim no ninho de qualquer passarinho, e ainda consegue dar graças aos céus pela mão que lhe cerceou a estrada toda do viver, como se essa mão lhe tivesse salvado da desgraça, desgraça essa que, no máximo, seria a incerteza e a graça de poder lutar pra ser aquilo que se quer. È impressionante como as pessoas preferem viver infelizes a batalhar o próprio destino. Sempre tive vontade de dizer ao velho que o trabalho que tinha na fazenda foi o que ele escolheu pra vida pra não se dar ao trabalho de trabalhar por si mesmo e em nome de algo. Que se tocou gado a vida toda deveria ter aprendido antes a tocar o seu próprio andar. Mas, o coitado mal pode com as próprias palavras ébrias que lhe escapam entre os dentes, completos estranhos de tão distantes que vivem um do outro. Assim, me limitava a ouvi-lo e gritar algumas palavras que ele pudesse ouvir, apesar de sua surdez e sabedoria em ouvir só o que lhe convém, para seguir com seus causos de velho. Foi num desses monólogos que o velho me contou uma história que não sei se tomo por carraspana ou só ignoro como fruto da incapacidade de inquietar-se de uma mente. De qualquer forma, a história se segue...
- Tem coisa, nego, já dizia um homem santo que conheceu a finada minha mãe, um homem chamado João Maria... Tem coisa que Nosso Senhor colocou no mundo e que o homem não conhece! Uma noite dessas, uma noite fria que fazia tremer só de lembrar quando a gente dormia nas palhas de milho – eu fui criado que nem porco piá! Que nem porco! Numa noite fria dessas, eu fui fechar a porta do galpão lá fora e quando estava voltando vi no céu uma luzinha que dançava pela noite, como esses vagalumes grandões que pintam a madrugada e alimentam os passarinhos pela manhã.
Até aqui eu estava, como todos os dias, entediado. Eu sabia que jamais aquele velho caduco iria esquecer aberta a porta do galpão à noite, porque ele guardava umas quinquilharias lá dentro que tinha na conta de tesouros. Sabia também que ele entregava a alma ao diabo pra não sair de casa durante a noite. Um homem maduro que dorme com as luzes acesas só podia ter medo até da própria sombra. Mas, como sempre, eu seguia ouvindo, hora tomando tudo por mentira desinteressada, hora pensando em que diabos seria essa luzinha de que ele falou – eu costumava ficar procurando os nomes corretos pras palavras tortas do velho, como se eu soubesse mais do que ele mesmo a respeito do que ele dizia... Quem me dera...
- A gente não pode julgar as coisas sem saber, né piá? A gente não sabe nem o que tem nas tripas! E eu fui de volta pra varanda devagar – eu estava tão assustado que nem sabia se olhava ou se fechava os olhos. Aquela luz foi crescendo. Pairava e dava voltas no ar. Meus olhos já não são bons, nego! Mas eu forcei um pouco a vista e deu pra ver que aquilo era fogo! Fogo, piá! Fogo no meio da noite dançando pelo cemitério...
Subindo a primeira ladeira pra cima de onde morávamos havia um cemitério. Era um lugar sem vida - adiantando o chiste usual. Regularmente subia lá. Minha avó havia sido enterrada lá. A velha nunca fez questão de esconder que odiava continuar vivendo. A caduquice e sua natural falta de educação já mascaravam sua aversão pela vida há anos. Quando morreu só deram por falta de um corpo vagando e colhendo amendoins pela roça. Contudo, a história do velho, como todas as que ele contava, começava a me deixar inquieto: ele não sairia de casa a noite, isso já é fato; contudo, acreditar, não obstante, que ele tenha visto algo como um fogo vivo no cemitério já era demais pra minha boa vontade e escuta indiferente.
- O fogo subiu piá! Ele dançava por cima da casa do vizinho ali da frente. Aquele fogo bonito! Sabe guri, eu tenho medo daquele fogo há muito tempo. Mas, foi a primeira vez que sentei na varanda e fiquei olhando pra ele. Eu via o fogo correndo, brincando feito um lambari em riacho limpo. Quando a gente fica velho a solidão toma conta da gente piá! E eu nem tive medo. Ela tá enterrada lá!
Pela primeira vez na vida eu via aquele velho impertinente falando de algo que era seu. Falando da sua velha, da sua amada, da companheira que passou a vida ao seu lado, criando seus filhos, tirando os bichos de seus pés, fazendo sua comida.
- É guri! O fogo passeava por lá e eu sabia que era ela. Me correu um ar na espinha piá! Era ela no fogo, no ar, no barulho das árvores. Era ela tentando me dizer pra não morrer antes da hora e pra continuar tomando minha cerveja. Era ela me lembrando de que eu não abro a porta do armário dela há anos; era ela dizendo que não esquece de que escolhi viver sozinho do seu lado, soprando o fogo pelo ar como soprou a vela do nosso único bolo: nosso bolo de casamento, ela correndo pelo vento como corria na fazenda, com o cabelo solto, gritando e rindo, sem se importar com a sujeira nos seus pés sempre descalços, sem olhar para a chuva que vinha. Era ela guri! Como ela era linda!
O velho pareceu estranhar suas próprias palavras, pagou a cerveja que havia pedido e saiu com o saco do gole embaixo do braço.  Surpreendi-me um pouco com o velho. Não achava que gente velha podia amar assim. Não achava que homens criados tão rigorosamente, tão friamente, podiam sentir um frio na espinha lembrando de contos passados, de amores que o tempo levou. Espantei-me com o velho, espantei-me com a história, com seu jeito de falar e de sentir. Espantei-me com a capacidade singela de um homem amar uma mulher.
Ele subiu a ladeira de sua casa. De longe eu via o velho abrindo a porta do galpão empoeirado. Sentou. Abriu a cerveja. Os cachorros se aproximaram. Ele tocava os bichos; com certeza xingava aqueles agourentos. Ele não dava mais conta de ser velho, mas teimava em viver, pois a vida lhe foi boa.



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Se eu encontrasse a moça que escreveu "A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer"

Bom, diria eu que gostaria sim que ela (uma mulher) trabalhasse muito, pois eu não acho saudável que alguém fique totalmente desocupado e não gosto de pagar a conta sozinho; quanto a sua caixa de emails eu não tenho nada a declarar. Não quero que seus pés tenham calos e bolhas porque eu acho uma atrocidade uma mulher usando um sapato que vá machucar seus pés e sua coluna e porque eu sou baixinho demais pra sair com uma mulher com salto 15. Ela deve ser independente e fazer o que quer com o próprio salário, sim. Acho meio esquizofrênico comprar uma bolsa cara e doar para um projeto social, acho que isso é digno de nota. Precisa saber dirigir e ter vontade de viajar pra muitos lugares. Acho que ela precisa saber cozinhar se não tiver grana pra comer fora todo dia, do contrário é dispensável. Ela não precisa ser sarada e nem se preocupar muito em pentear o cabelo, nem gostar de ir ao salão (ah, deus! Como eu gostaria que ela não gostasse de ir ao salão!). E, acima de tudo, tem que ser sim segura de si e não precisar de mim nem de ninguém.
Enfim, dito isso, eu diria pra essa moça que ela não me interessa. Sim, não me interessa. Porque creio que para o mais importante algo lhe falta; pra ser bem resolvido é preciso resolver o enigma entre o eu e o outro. É preciso que pare de queixar-se da sociedade, dos homens, da maioria dos homens - aliás, não é a maioria que lhes interessa pelo visto, então, foque-se nas minorias em vez de queixar-se sob o silêncio da belle indiference  histérica. A culpa e a responsabilidade de todas as queixas do mundo é sempre do outro, do marido, da mãe, do pai, do filho, da vizinha, da outra... Assim é difícil de ser bem resolvida! Como vai resolver àquilo que não lhe cabe? Como vai acertar seus passos se anda a passos de outros?
É lindo quando a pessoa sabe diferenciar independência de solidão. É mais lindo ainda quando consegue admitir suas impotências, porque é só nas nossas falhas, nas nossas faltas, que há espaço para que alguém entre. Em alguém que se basta não cabe mais nada. Não dá pra ver isso nesse artigo tão fálico. É uma mulher gabando-se de ser aquilo que não quer? De ser o que lhe fizeram? Sartre nos ajude, por favor: "O que você faz com aquilo que fizeram de você?"
Creio que todos os homens, mesmo os machistas e abobalhados (a grande maioria), que leram esse texto viram-se indefesos diante de tanta auto-suficiência (ok, fui irônico!). Sociedades sempre existiram, pessoas sempre sofreram de amores e sempre usaram sociedades de desculpa. Há que se ter responsabilidade por aquilo que se é. Se você, digníssima blogueira, quer um homem que não quer algo que você não é, procure alguém que queira aquilo que você é!
Sabe, alguns de nós homens não gostamos de carros, alguns de nós não assistem futebol, não arrumam empregos bem-sucedidos, não gostam de sair com prostitutas. Alguns de nós gostam de mulher que xingue, grite, beba e nos faça rir. Não, nós homens não precisamos lhes ganhar de volta, porque nós não precisamos mais ganhar ninguém. Hoje, cada um anda ao lado daquilo que quer e voa pra onde bem entende.
E por fim: concordo, os pais criam filhas para o mundo e querem noras que fiquem na família. Meu pai me criou pra ser peão, não o fui, muito pelo contrário. Eu não o culpo por isso e não o responsabilizo por minha inadequação ao mundo. Cabe a cada um aceitar a própria estranheza e não queixar-se ao mundo por não entendê-lo.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Estou enganado

Na primeira vez
Em que tentaram me enganar
Eu corri na praça
Com suas tripas a sangrar

Na outra vez
Que ela quis me ludibriar
Eu me fiz de santo
Pra proeza alguém notar

Na penúltima vez
Que na sorte eu fiz minha fé,
Por querer experimentar,
Minha vela foi maré

E dessa vez
Em que nada pôde dar certo
Porque do acaso
A sorte mora mais perto

Eu sorri feliz
Pois encanto é o arregalar
Dos olhos. Eu, que tanto quis,
Agora posso me soltar

Da última vez
Em que tentaram me enganar

Ora, me enganaram.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Controle de que?

Estão todos tão implicados, tão implicantes, tão politizados, polidos, astutos e maduros. Um punhado de palavras isso... um outro punhado de emoções nisso. É tanto partido, é tanta opinião, é sociedade demais, é controle demais. O que mais vejo todo dia é gente dizendo "Eu não consigo controlar isso!". Mentalmente eu me pergunto: "quem foi que lhe disse que isso precisa ser controlado?"
Todo mundo quer um mundo perfeito, faz planos, estuda, trabalha, rala pra caramba. Todo mundo é muito infeliz. Porque todo esse esforço, todo o mérito que incessantemente cobramos da vida - "Mas, eu mereço isso! Eu fiz tudo certo!" - não passa de vertigem, de uma bela ilusão que se desfaz no primeiro lampejo de realidade. Não, melhor. No primeiro lampejo de verdade. Pois é só saber um pouquinho da verdade, do porquê disso de controlar, de trabalhar, de ganhar grana... só saber um pouquinho disso, pra tudo se esvaziar como um vaso trincado.
Já dizia o psicanalista "felicidade não é bem que se mereça!". Entender o acaso, o caos determinístico, o vazio de ser e de ter é terrível. Saber que não se tem o controle, que nunca se terá, que ninguém nos dará esse prazer... Pode parecer pessimismo. Não sei, acho que é só a vida.

domingo, 1 de junho de 2014

Fim de julho

Levantou ainda meio atormentado. O sol brilhava meio desconfiado na janela. Pendemos pros lados do fim do inverno. É julho. Um café passado correndo, um doce qualquer da geladeira e bandeou para o trabalho. A vida era dura, mas o fim da adolescência já o havia ensinado a ver o dia bonito e achar as coisas belas na vida mesmo quando tudo por dentro estivesse podre e cansado. E como estava podre neste dia. O pior de tudo era o bem e o bom que continuava vendo. Seus olhos marejavam – ele pensava que de frio, ou se enganava bem – por ver felicidade no rosto das pessoas. O pior era isso. Sabia reconhecer felicidade; ele a bebeu aos baldes. Sabia da fonte, conhecia suas manhas, seus jeitos, suas expressões faciais. A felicidade escorria pelas bordas da cidade numa manhã de julho. Como é triste ser triste quando o dia é feliz.
Os dias no trabalho passavam e o fim de mais uma etapa chegava rápido. Entretanto, ele continuava a pensar no que errou... Ela era tão linda, tinha olhos tão meigos, um jeito tão burro. Sim, era uma beleza burra, uma beleza anencéfala e semialfabetizada que cansava aos ouvidos, mas não aos olhos. Homens! Comem com os olhos e lambem o resto todo. Lambem, beijam, mentem, confundem e se deixam confundir. Ele sabia que a culpa era sua. Ele sabia que não devia ter olhado nos olhos da medusa, sabia que ela o atrairia para si, para a quintessência de si, para o meio do corpo, o meio das pernas, o meio da vida, o meio do nada. Um deserto de piadas ruins e músicas extenuantes.
Passou a primeira esquina de sua casa. Um escritório de advocacia, um cachorro que parecia um animal de circo, de tão grande, ladrava como que querendo matá-lo.
- Ah, vá se foder bicho maldito!
Ele já sabia que, no estado apático em que estava, o animal poderia estar comendo sua perna que o máximo que faria seria novamente mandá-lo a puta que pariu.
Lembrou: ela tinha um cachorro! Era um animal velho e que logo morreu. Só lembra-se dele por piedade. Pensou em como ela amava, em como era sua forma de apreender o outro, seja ele um cachorro ou um homem (quando um encanto termina a mulher não distingue muito bem esses dois gêneros animais). Ela era fria. Ela gostava do cachorro quando podia dizer dele pra alguma visita que entrava em seu apartamento sujo e sem vida, com pinturas foscas e abstratas nas paredes das quais ela nunca soube dizer nada.
Agora o pego chegando ao terminal rodoviário – tinha que passar por ele pra chegar ao trabalho e sempre ficava pensando em toda sorte de gente que podia encontrar por ali, uma cidade grande tem de putas a santas em suas rodoviárias. Está cabisbaixo. Há um casal de quero-queros por ali. Está pensando em quão idiotas são os pássaros. Eles amam! Pior que isso... eles amam de verdade. Quem dera tivesse sido tudo de mentira.
Agora chega ao trabalho. Os olhos já escorreram um pouco, o nariz faz um barulho engraçado que, de dentro de sua cabeça, parece muito mais estrondoso. Triste. Já chorou o que tinha. Já cansou daquela cadela, daquela ave traidora, daquela puta mercenária. Nunca mais vai amar. Está decidido. Não importa quão triste fique, quantos cães tenha que comprar pra lhe fazer companhia, quantas vezes tenha que ouvir aquela canção do Pink Floyd; sem mais ilusões. Neste momento entra Cristina.

- Puta merda... que pernas – pensou.



sábado, 31 de maio de 2014

O buraco é muito mais embaixo

Ser pudico... O fui por um bom tempo. Fui um punhado de outras coisas que não sou mais também. Já fui cristão, já fui ateu, já fui cabeludo, já fui moleque do cabelo lambido, já fui favela, já fui tanta coisa... Fico aqui olhando, pensando: como as pessoas se assustam com o sexo, com a sexualidade, com as traições, com as desonestidades. Congelo ao imaginar que ninguém faria questão de falar disso se isso não lhe fizesse questão.
-"Ah, mas a novela da Globo, esse mês tá horrível! Uma afronta! Onde já se viu aquele cara fazer tudo aquilo e não ser punido!"
Pra esse bunda mole bajulador de padres e mães eu mentalmente digo: https://www.youtube.com/watch?v=ssC77hapv0g
Como disse, eu já fui um desses. Sei o quanto é ruim aceitar a verdade às vezes. É muito mais fácil reclamar igual uma mulher traída. Aliás, nossa! Como existem homens e mulheres traídos... Traídos pela promessa de uma vida feliz, traídos pelas palavras, traídos por si mesmos e pelos outros, traídos pelo beijo que deram e não contaram à esposa, traídas pelo papo furtivo com as amigas, traídos pelo papo sobre prostitutas depois do futebol, traídas pela capa da revista que anuncia um homem sem pelos, sem caspa, com barba perfeita e peito robusto... até mesmo traídos pelo anúncio do "aumente seu pênis!" (promessa desonesta pra se fazer a um homem).
Traídos... A-traídos! Tentador!

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Cama de gato e o quanto ficamos bobos

Dia frio. Vou com um casal de amigos comprar a cama para o meu gato. Eis que chego na loja e vejo o vendedor desconsertado por eu não saber o sexo do animalzinho que ainda vou receber. Imagino o que se passa em sua cabeça:
- Como alguém pode não saber o sexo do animal?!
Ele ri. Todos rimos disfarçadamente; eu por embaraço e ele por piedade, imagino.
Argumento:
- Eu ainda não sei, mas não creio que ele vá se importar se a cama for vermelha!
Engulo isso e saio remoendo, como sempre faço. Aí me pego pensando: eu realmente tive uma preocupação com a cor da cama do gatinho? Ele rói a ração agora enquanto escrevo e pareceu bem chateado quando mexi na cama dele pra ver se estava tudo bem. Senhor vendedor, meu gato adorou a cama! Sua sexualidade não foi questionada e ele não se sentiu ofendido.
Eu já pensava em ter um animal. Sabia que um bicho roendo meu sofá e sujando meu chão ia me tirar um pouco desse mundo perfeito de coisas no lugar. E é o que tem feito nessas últimas horas: tirar do lugar.
Volto: ficamos bobos. Sim, ficamos bobos e infantilizados. Discutindo com uma amiga - que teria honras pra ser mais bajulada por mim, mas gosto tanto dela que ignoro seus títulos -, as pessoas crescem, os cabelos e as unhas crescem, os pelos aparecem, a barba cresce, o cabelo cai e o rosto enxuga e continuam no velho jogo do fort da, esperando o retorno, o retorno que não virá, o retorno que garante a certeza de que o encontro acontecerá, o encontro, a identificação e a plenitude de uma vida completa e coerente. Mas, isso não virá, porque o mundo não é belo e nem feio e muito menos justo, os gatos não ligam pras cores e não sofrem se forem homossexuais. Não há coerência e, se há algo que sei, é que não se sabe de nada a não ser de si, e isso já é muito. Qualquer antigo permafrost pode acabar com o mundo, mas, coitado, chegará atrasado na vida de algumas pessoas.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ama-me, ama-te, mate-a!

"Ama-me, mesmo sabendo que eu faço tudo para não ser amado e para destruir-te."
Leio isso como que por praxe. São tantos textos sobre psicanálise que às vezes uma frase é só mais uma frase. Contudo, esse texto era especial... falava sobre a vontade de dominar, do desejo obsessivo de estabelecer controle sobre o desejo do outro, anulando-o. Como um pai que não pode suportar a ideia de um filho inquieto. Como um amante destruído pelo espaço de amar.
"Cale-se! Como se atreve a desejar algo que não me cabe, que não cabe em mim, que não cabe nos meus planos, na minha vida, no meu mundo perfeito de horas e planos, roteiros, rotas de fuga e fugas de ideias? Como ousa querer algo? Quem é você para escancarar-me aos olhos o quadro daquilo que não sou? Você! Logo você que nem me dá o que preciso, que nem me olha nos olhos, que nem me diz como ser! Logo você que não me serve de medida, que está sempre precisando de consertos e ajustes e não vê! Cale-se!"

sábado, 24 de maio de 2014

Cadela, espaço e mortes em família (sic)

Uma das noites mais normais. Um dia de estudo e gritaria. Como todo fim de semana que fico em casa. Meus vizinhos devem me odiar; que diabo de psicólogo sou eu que toca Matanza no violão sábado de tarde gritando pras paredes: "Eu não gosto de ninguém!"?. Contudo, hoje fiz o que não fazia há tempos: fui ao mercado com os fones de ouvido bem altos, não levantei a cabeça a não ser pra olhar pro céu ou pra moça não muito simpática do caixa. As ruas são tristes em uma cidade pequena no sábado à tarde... Os bêbados estão no bar, os universitários na rua com suas camisinhas no bolso, as senhoras de família em casa ou em alguma vizinha roendo milho de pipoca. Tudo muito normal. Claro! Normal pra eles... Meu mundo louco e beirando ao niilismo me deixa tão excitado com qualquer detalhe... lembro agora que li que a tendência quando se odeia algo importante é amar algo insignificante... Amo muita coisa insignificante; o som daquele bem-te-vi sem vergonha que ouço nas manhãs em que meu ouvido lembra dele, o pato da lagoa onde fazemos caminhada, a lembrança do som da sanfona do meu tio tristonho e brincalhão com o qual tenho muito medo de me parecer; amo poder olhar pras pessoas e saber que sabem tanto quanto eu, ou seja, porra nenhuma!
Mas, a vida delas é mais comum... até meu sábado de tarde acaba virando uma conversa doida e nonsense com uma guria cyber-conhecida muito interessante sobre nossos complexos, sobre zoofilia, taras infantis, espaço e matricídio. Como é bom ser como sou e ter os amigos imbecis que tenho! Relendo isso, que bom que tenho amigos, porque eu realmente não gosto de quase ninguém...

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sobre o desejo e o que minha cognição é capaz de processar de filosofia e psicanálise

Dizia Sócrates, - ou melhor, não dizia: questionava inapropriadamente -  em "O Banquete", que quem é forte não tem motivo para querer ser forte. Ninguém deseja aquilo que já tem. Não se pode querer comer logo depois do almoço. "Não somos carentes daquilo que já somos".
Os velhos malucos da Grécia chegavam então a pensar que Eros, o deus a quem se dedicaram a fazer o elogio estando bêbados e excitados, leva a desejar aquilo que ainda não se tem. Sejamos mais claros: o amor é demanda daquilo que não se tem, do indefinido e do incerto (o que, pra bom obsessivo, é o mesmo que dizer que o amor é um apelo à burrice, já que incerto escande-se "in-certo" = errado, e eu não suporto a ideia de erro, enfim...).
Por infortúnio Agaton teria dito antes que Eros queria o belo e o bom. Infeliz, maldito! Sigamos... Eros, então, é eros (desejante) do belo. Se deseja-se o que nos falta, então, Eros não pode ser bom e nem belo, do contrário não desejaria o bom e a beleza.
Entro em paradoxo: o amor é belo e bom, e assim quer o que não está no âmbito do bom e da beleza, ou, quiçá, o amor é feio e ruim?
Ouvindo pessoas todos os dias começo a me perguntar... O dia começa sempre perfeito pra algumas pessoas, contudo, elas logo encontram um prurido, um incômodo, um cara no trânsito pra xingar, um trauma de infância pra relembrar, uma transa mal trepada pra reclamar; ou então o dia já começa uma desgraça, um tiro de escopeta no cu, uma cagada enfadonha, e a pessoa começa a se perguntar qual a causa de estar sempre cagada, sempre reclamando, sempre infeliz.
Penso assim que se amar é buscar o que é bom, é preciso primeiro que algo ruim, algo infeliz e feio aconteça pra que se possa amar alguma coisa. Dizia meses atrás, conversando com uma amiga muito mais que amiga, que as pessoas que nunca sofreram são um porre, e são mesmo!

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Where we go?

Bicho, cadê as boas pessoas desse mundo? Aquelas que realmente sabem o que querem e pra onde vão. Que sabem que a vida só é possível em dueto, em conjunto. Que veem o amor nas pequenas coisas, que dormem na varanda pra ver as estrelas, que sonham pequeno, que veem mais brilho na lua do que no ouro, que dariam tudo pra livrar-se do celular, do computador, do sapato apertado, que fariam tudo por um beijo ou por um simples calor de um abraço? Onde estão os loucos de Kerouac, os fugitivos da caverna, os cristãos de verdade - não os que tem fé em deus, mas os que dão a outra face? Se eu encontrar um desses passageiros da vida por aí espero reconhecer nos olhos dele a inocência da criança que ainda carrega no íntimo. Dessas pessoas que o mundo precisa: gente que se conhece, gente que ama de verdade, gente que se entrega, gente que aceita o que não pode mudar e muda o que não pode aceitar, que desenterra os mortos pra ouvi-los dizer adeus, que abandona quem não pode dar um abraço sem ser solicitado, que manda um amor embora quando ele não sabe o quanto é amado. O mundo precisa de nós meus amigos, da nossa tristeza em sermos como somos e da nossa alegria em sermos diferentes de todos! Obrigado por me provarem que a vida merece mais do que uma olhadela de canto de olho.

Ouçam...

Todo mundo sabe que eu não costumo rezar há alguns anos. Mas, depois de tudo, a um coração ateu cabe sempre uma prece: 
Que ninguém mais me tire a solidão sem oferecer em troca verdadeira companhia, como diria Nietzsche. 
Que não me roubem a paz!
Que não recolham todo o meu amor que demorei tanto para distribuir. Foram tantas casas em que passei, tantos olhares, tantos amores. Não posso mais pôr tudo em um único bolso.
Que não me tirem a paz. Sim. Novamente, não me tirem a paz! Não me deem a mão se não pretendem segurá-la firme. Que não entrem em minha vida os entraves, os gozos mortíferos, os plágios da canção da vida. Que me venham os fortes, os que fazem suas próprias canções, que cantam, que ouvem o canto do vento e do tempo. Sim, por fim ouçam o tempo. Costuma falar baixo...
Amém!

Os olhos mentem, eu, contudo, os amo

É numa noite assim que vc se pega envelhecendo... Sim, eu sei. Eu tenho só 22. Enfim, estou deitado sob a minha janela, a lua está um pouco distante dos meus olhos, mas a noite está linda. Sabe, eu já adoeci, já me curei, já enlouqueci e já sanei as dúvidas para tornar a duvidar. Bom, aprendi muito... Aprendi que não se pode salvar os outros daquilo que eles escolhem fazer com eles próprios; não se pode dizer o que vc acha que é certo pra quem não sabe o que é certo pra si mesmo; não se pode dizer eu te amo pra quem não se ama o suficiente pra entender do que vc está falando; não se pode parar de comer, de dormir, de viver, de beber, de sair por causa de um relacionamento. Eles vem e vão. Nossa geração está fadada à liquidez; é o que tem pra hoje! Aprendi ainda que mulheres tem olhos lindos, mas eles podem mentir muito bem se não forem adequadamente ignorados vez ou outra; os homens dizem muito sobre como agir frente a esses olhos, mas, na verdade sabem que são todos vítimas do olhar das donzelas indefesas que nos comem a própria fome. Aprendi, por fim, que amar é um erro grotesco, mas não um erro no sentido de pecado, de falta, de bobagem. Amar é um erro de raciocínio, um erro de cálculos, de medidas... Amar é errar por prazer, é dar-se ao luxo de ser insensato, inculto, bobo e parecer totalmente ignorante. Como pareci ignorante! Mas, fazer o que? Eram olhos tão lindos... Ah, aqueles olhos! Mentiam e faziam-me feliz! Será isso que chamam envelhecer? Entender que os olhos mentem e que gostamos disso...?

Vi os olhos, os olhos nunca me viram

Olhos de ressaca! 
Ébrios olhos 
órbitas fundas

Anel mudo na mão
Peito sem coração
cabeça sem razão

Que fizeste da tua vida
De que mausoléu fugiu
essa tua alma gélida?

Tu mesmo pintaste esse sorriso falso no rosto?
Tu que disseste essa frase mentirosa ou aprendeste das entrelinhas,
das entre línguas, das entre mentes que meu eu te deu?

Tu finges o tempo todo ou tua falsidade se distrai vez ou outra?
Tu sabes o que cabe em um peito
ou apenas atribui a todos os peitos o mesmo vazio que cabe no teu?

Tu, sim, tu foste tão crua, tão fria, tão nua...
Tivesse apenas sido nua... teu seio nu disfarça a nudez dos seus olhos!

Pro futuro, com certeza

Ah vida! Como tu és boa professora! Andar na rua de manhã, que era um martírio, um eterno retorno ao engodo, à pulsão de morte desvalida e paralisadora, tem sido o maior dos prazeres. Aqueles malditos passarinhos agora parecem borboletas na beira da praia dançando pra enfeitar o horizonte. Não me fiz maior, não me fiz mais forte, não engordei e a academia foi um projeto falido... Mas, eu cresci! Eu liberei um mundo simbólico aprisionado pelo gozo masturbatório de um amor inventado. Eu venci o bloqueio da minha liberdade, a mentira que contei pra que pudesse conviver com o fato de que eu sonho com coisas idiotas, que meu mundo é idiota, que minha vida é idiota e que tudo o que eu posso fazer dela é mera idiotice... Mas, é a minha idiotice, é o meu jeito de ver o mundo, meus olhos que lacrimejam de manhã por ver qualquer bobagem. Minha boca que entorta num riso compulsivo e calado por ver a idiotice dos outros da qual me permito rir apenas por não me pertencer. Viver é muito mais do que fazer o que se manda ou o que se sonha, viver é engolir a sorte e o acaso como quem toma um trago de cachaça pra aguentar o batente, é espalitar os dentes com o que sobra dos seus próprios ossos quebrados pelo tempo e pelos outros, já que só nos resta juntar os pedaços e utilizá-los de forma positiva. Porém, depois de tudo eu não poderia deixar de ter um orgulho, de afirmar meu narcisismo: tudo o que vivi foi de verdade! Os choros, as brigas, os xingamentos e socos nas paredes, as tentativas de retorno a um passado escorregadio e já não tão atraente. Tudo verdade! E quem viveu tudo de verdade no passado só pode olhar pro futuro com certeza!

Engraçado

Engraçado
Engraçados são os dentes
Eles sorriem
Amarelam o semblante.
E quando se escondem 
Eu sei o quanto querem sorrir!
Um sorriso nunca é perfeito
Mas, sempre tão engraçado.

Fique longe de mim

Se vc realmente acredita que as pessoas são negociáveis, que a letra daquela musica idiota que todo mundo gosta de dançar faz sentido, que viver é entreter a morte com brinquedos, quando se é criança, com carros quando se é homem e com a solidão e o gozo de dizer-se doente, quando velho. Se vc está entrando na média, considerando-se parte desse todo néscio e raso... se vc é um desses... fique longe de mim!

Há algo de ridículo no amor...

Amar nos torna patéticos... ou vc sorri da sua falta de desenvoltura em mostrar-se amante, ou não ama por medo do ridículo.
Amar nos torna pensativos e inquietos... nada lembra mais o homem da sua debilidade do que amar... o próprio sexo é tão renegado não pq é contra os costumes, a religião ou a moralidade humana, mas, pq nos coloca diante da pergunta sobre nós mesmos: quem apresentarei a este outro que sinto me faltar, apesar de nunca ter me sido propriedade? Esse outro que, se possível, deixaria tão longe de mim quanto se deixa o fogo longe das mãos... O amor se faz virtude qndo nos joga nas entrelinhas de nós mesmos... mesmos nós...

Não. Não basta!



Não basta um belo sorriso
Não é suficiente um olhar tranquilo
Não me completa o seu bom gosto
Tuas palavras pesadas em quilos

Não me faz melhor tua pele alva
Não me envolve em paz os teus conselhos
Não quer calar esse anseio
Mesmo sem rugas em teu espelho

Não preciso mais de tua voz
A minha, rouca, já me basta
Não quero que me ligue
Para atrapalhar a minha insônia

E já não quero métrica
E que o diabo leve a rima
E, Deus, se morar mesmo no Éden
Saiba que não me bastará estar aí em cima!

Obsessão... obsessão... obsessão

E o pior é saber que tenho uma vaca na cabeça. 
Pensando bem, tenho várias vacas na cabeça...
Primeiro tenho AQUELA vaca na cabeça, é, aquela... enfim
Depois tenho a vaca dos meus pensamentos ruminando, remoendo, regurgitando...

Chuva é o som do útero da mãe-terra

E se a chuva continuasse, infinda? Se esse som uterino de vida entrando pela janela fizesse um eco eterno nos meus ouvidos? Já faz horas que ressoa a água no piso. Ressoa, faz ressalva, reaviva a alma, anima. Sempre penso que a chuva deve ter algo especial, diferente... uma tarde fria de verão em volta do fogão à lenha talvez? Aquele beijo desajeitado no começo de uma noite de dezembro? Um cheiro de poeira molhada? Um guarda chuva quebrado? Uma blusa colada nos seios? O que é a chuva? Por que ela faz do espírito um doente dos nervos em transe? Chuva... nervos... transe...

Sobre fevereiro de 97

"Era fevereiro de 1997. Eu tinha 6 anos. Que diabos eu ia fazer na escola? Eu tinha morado cinco anos no meio do mato, sozinho... eu não precisava fazer amiguinhos, eu odiava ver meus pais saírem pra trabalhar enquanto eu ficava naquele lugar horrível cheio de crianças estranhas que não gostavam de mim, tão somente pelo fato de eu respirar. Mas, os dias foram passando... chorar todo dia já estava cansativo... Então, vinda de algum canto escuro, alguma sala distante - porque quando você tem seis anos tudo é distante - surgiu ela... era uma guria feia, com uma mancha estranha do lado do rosto, diziam que ela tinha sido picada por uma aranha. E, então, tudo o que eu me lembro é que era bom ir para aquele lugar chato... A mulher! Ah, a mulher... desde os meus seis anos eu dou um jeito de suportar a vida com um espantalho com peitos e bunda, como se fosse um amuleto, como se quando o diabo viesse, quando a angústia pintasse o céu de cinza, eu balançasse uma mulher pelas pernas - no meio das pernas - e gritasse: "olha mundo! Seu porco nojento! Eu sou feliz! Eu tenho uma mulher! Mas, como todo amuleto um dia perde a força: caíram as mulheres... não me servem de nada! Não é tão mais fácil como antigamente espancar o demônio segurando uma mulher pelos cabelos... dói! Os dedos cansam! E como elas reclamam! Como falam, praguejam, injuriam... acho que o diabo fugia cansado de toda a belle indiference, de tanta histeria, de tanto desejo insatisfeito e tanto apelo ao desejo do outro... É um eterno "mimimi, eu preciso de mais!", "não era esse creme que eu queria!", "como vc não sabe o que eu gosto!", "me conquiste!", "não pergunte!"... santo deus! Isso não é uma mulher, isso é um tirano... foi isso que eu busquei: um tirano, um outro demônio que me importunava tanto quanto a angústia da solidão. Bom, eu sou ateu! Então, pros infernos com os demônios! Eles não vão mais defecar as suas leis na minha vida! Amém!"

Desçam do trono rainhas

Uma "coisa" sobre as mulheres... Parece que depois de cair do palco a bailarina só volta ao alto se tomada pela mão, pela mão do homem, pela mão ingênua e acéfala de um homem. Se um homem levar o coração até ela, não será um presente, será uma oferenda. Se um homem partir o seu coração será como heresia e sua fiança é o desamor, se um homem recusar os seus encantos, pobre apóstata, sofrerá os martírios de sua língua enferma. Se um homem ousar olhar pra outras pernas, outros bustos, outros olhos... pobre demente, resta-lhe a fogueira. Contudo, se um homem atrever-se a amá-la... infeliz o dia em que nasceu, preferiria a fogueira. Frente aos encantos da mulher resta ao homem conformar-se, resta o resto, aquilo que de um outro deus ela trouxe e que ali permanece em seu peito como atávica amargura, como solidão despreocupada, desorientada e inexorável.

Ser chato, ser cheio...

Você percebe que está ficando velho e chato. Não, não por nada em especial; não tive nenhum insight, nenhuma epifania. Contudo, você percebe a idade, a maturidade ou a cafonice mesmo (use o termo mais ou menos ofensivo de acordo com seu desejo)... A velha história "case-se com uma mulher que tenha mais livros do que sapatos!" parece cada dia mais verídica. Outro dia, casualmente, de bobeira nesse mundo paraalucinado do facebook, entro eu no perfil de uma guria... me pego vendo os gostos em vez das fotos, as frases escritas em vez das tiradas prontas, etc. "Essa leu cinquenta tons de cinza e não se envergonhou de colocar nas preferências"; " Essa sorri em toda foto, mas eu sei que está bem mais feio por baixo dos belos dentes e da pele rosada!"; "Essa não controla a bendita língua!"... ai ai, tudo era muito mais fácil quando eram só corpos, fantasias e entregas gratuitas da sanidade nas mãos de uma fêmea. Bom, divago. Mulheres, mais de Fernando Pessoa, menos de Caio Fernando Abreu, por favor! Obrigado!

Lascívia

Os olhos dela empenhoram
emprestam ao corpo
outros olhos que lhe olham

Os seios dela são ocos
de um vazio que quer tão pouco
Outro seio pra dar corpo

O nome dela não importa.
O homem dela é que lhe faz
ou mulher ou carne morta.

Seu lamento é falação
seu gozo é o não ter
Seu orgasmo é felação.

É mulher ou é o que?

Grana magra

Pra você que só pensa em grana
Eu só tenho um leve dó
Eu tenho até um pouco de nojo
Eu espero que termine só

Eu espero que tu entendas
Ou que vivas a cismar
E só pra arrumar contenda
Espero é que tu vá te ferrar!

Enche bem este teu bolso
Dessa calça de grife
Que vai desbotar a contragosto
Não importa o teu chilique

Enche bem este teu peito
Refeição de urubu
Olha bem esse teu jeito
Enche bem esse teu c*

Sobre direita e esquerda




E é o comuna bitolado
é o lado do bipolar
bosteando desolado
é o brado do barbado.

E é reaça de mentira
metendo sem gozar
é tiro, é tara, é tira
é touro solto no aglomerar

É tanta verdade completa
é a compra do nosso pensar
O peso a balança decreta
Pro lado que o gosto pesar