sábado, 11 de março de 2017

Cadafalso

Já não faço caso do acaso
Se me caso ou se descaso
Se descalço ou calçado
Se vestido ou se pelado

Saudade sinto de qualquer sentir
Até a dor seria saudada na chegada
Pois de dor também vive um homem
Mas, não se pode viver de nada

Não degusto o menor tempero
Não cheiro já nem um cheiro
A corda me apetece à alma
Mas, e se voltar a vida a me dar palmas?

Contudo, é cada dia mais difícil
É cada besta que me enfurece!
Escadaria, não  se atravesse!
Cada pecado, uma nova prece
Mas, cadafalso que me aparece.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Por quando não te amo

Por quando eu não te amo
Faço verso em prosa torta
Por quanto eu te amo
Durmo inerte contigo nos braços

Por enquanto eu te amo
E já não sei desde quando
Por tanto que te amo
Que te vejo em outras faces

Portanto, te amo.
Mas, escrevo agora e
Por quando não te amo

 Que é quando morro de saudade. 

sábado, 11 de abril de 2015

Sobre o prazer de estar sempre em contradição e o não ao estupro da alteridade

Era mais fácil quando havia alguém na casa, quando o barulho das panelas me acordava, quando alguém me mandava tomar banho. Ah, que inocência! Pensava eu: "Por que preciso fazer isso? Eu não quero tomar banho!" - "Por que limpar o carro tão bem assim?". Os anos passaram e não tive mais panelas batendo na minha cozinha, nem gente pra me mandar tomar banho, nem ninguém pra dizer qual era o caminho certo entre os muitos caminhos que escolhi.
Antes, quando havia alguém, era tudo tão mais fácil. Eu não precisava me ocupar das incertezas e preocupações, nem das responsabilidades. Mas, eis que foi embora o outro dominador. E agora José? Lembro que com 10 anos de idade eu já pensava comigo, depois de um bom esporro do meu pai: "Velho desgraçado! Estou com ódio, mas ele tem razão!" - Ah, o supereu! Desde então tenho lidado com minha própria moralidade, com meus próprios sim e não. E a arrogância e o prazer foram tantos que cheguei a levar uma surra por dispensar o olhar cuidador do outro... "Eu sei o que tenho que fazer! Não sou burro!" - toma chinelada!
Mas, o gozo de poder ser arrogante o suficiente pra dar conta da própria vida sem enfiar no outro o peso dos meus pecados, estuprando a alteridade, é fantástico. Sempre penso que muitos crentes precisam de deus pra saber por que pecam. "Se deus não existe tudo é permitido". Sim, é mesmo. Nem tudo é conveniente. A ameaça de esvaziamento do grande outro planejador, construtor, protetor e invasor joga no limbo o sujeitinho agarrado à ali-é-nada fala e culpa do outro.
Os sujeitos se perdem. Queixam-se desvairadamente de uma vida que jamais tentam mudar. Oram para santos, padres, deuses e políticos, pedindo bênçãos que não os vão satisfazer. Me dá alguma tristeza ver as pessoas se projetando no lugar de objeto. "Ah, mas a vida me fodeu!". Temo dizer, mas todos nascemos fodidos, trocados e enganados. Uns mais que outros, mas a condição é a mesma. Quem deu as cartas estava nos enganando. Contudo, alguns saem por aí e escolhem foder os outros - "Vamos aderir ao jogo! Minha vez de dar as cartas!"-, alguns abandonam a mesa e jogam as cartas no chão, outros simplesmente jogam com as cartas que tem. Afinal, não é porque a trapaça foi feita que o trapaceiro vai necessariamente ganhar. O jogo pertence ao acaso mais do que à astúcia.
Enfim, parece-me que alguns de nós querem continuar o jogo roubado sempre acusando o outro de o ter iludido, mas também, sempre perdendo. Os sujeitos se perdem por estarem tão bem situados sob a palavra do outro.
Quer ver um sujeito perdido. Diga a ele onde está!

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Quando se tem dezesseis

Quando se tem dezesseis a vida parece muito mais assustadora. Os adultos não são tão grandes, mas são tão chatos. Por que eles não entendem? Por que não percebem as contradições, as discrepâncias, as injustiças e as mentiras? Quando se tem dezesseis a vida nos mente bem mais. Nos enche de falsas promessas, como um peregrino de Jeová te levando a palavra, os pais nos levam à vida. Nos trazem até a porta, do jeito que podem, tropeçando, duvidando, errando, nos atrapalhando pra que não cheguemos rápido demais ou mesmo pra que nem cheguemos (pra muitos pais os filhos precisam reconhecer-lhes o esforço, como se criar um ser humano já não fosse um presente). Quando se tem dezesseis essa porta é maior, é mais atraente. Libertar-se dos velhos impedimentos e das amarras ainda não é possível, mas é possível fazer algo, revoltar-se, drogar-se, dormir, comer, estudar ou fantasiar algum tipo de conforto. Porque, afinal, é preciso um conforto. Quando se tem dezesseis, dói. Dói no corpo, dói na cabeça, dói na rua, na escola, em casa; dói ser forte, dói ser bobo, dói não saber o que dizer, dói não dizer nada, dói não ser tão feliz quanto gostaria. Mas, é natural que doa. Saímos de uma vida quase perfeita, plena de alienação e de projeções de falsos desejos e necessidades. E agora? Quando se tem dezesseis, se pode desejar alguma coisa?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Bobo por bobo, doente por doente

O sujeito injustiçado... Sofre de um mal terrível: o mal de perder algo que nunca teve. Como assim me tiraram algo? Algo que ainda nem conquistei? Como assim, meu filho morreu? Ele nunca viveu comigo! De que maneira podem me tirar esse dinheiro? Eu nem o gastei! Por que a polícia não prende esses marginais? Eles vão acabar me roubando, me tomando isso que eu ainda nem ganhei, haja vista que sou pobre e miserável. Vai que roubem do meu irmão, que é rico e nunca usou nada do que tem?

Ah, o sentimento de posse... Ele alucina! Esperava algo ainda disso que lhe foi tirado? Viva, Robin Hood, que roubava o inútil para dar a quem não o quer, fazendo os pobres sentirem-se ricos por terem aquilo de que nunca precisaram! Afinal, riqueza deve ser isso mesmo... Ter o que não se precisa. Um gozo. O injustiçado só acharia justo o crime se ele pudesse também matar, roubar, “punir”... gozar!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Tonho, o tristonho

Tonho andava
sempre tristonho
a chaleira fervia
e Tonho não via.

Cadê essa cabeça?
Olha só a água!
A vida tá avessa
virada só em mágoa!

Um dia Tonho cansou.
Saiu trôpego pra rua
Na esquina se enamorou
de negra de tez nua.

Inundou-o a paixão
e Tonho, o tristonho
não tinha teto nem chão.
Vivia como num sonho.

Mas, alegria de Tonho
Dura só um carnaval
Tão acostumado estava ser Tonho
pra quem felicidade era coisa de jornal.

Não sabia ser feliz
só bebia seu triste vinho
A cerveja amolecia o nariz
só via pedras no caminho.

Então, a nega requebrou
encheu o olhos do tristonho
Seu marasmo arrancou
Botou amor nos dedos de Tonho.

domingo, 30 de novembro de 2014

Domingo de tarde

Fins de semana em casa... Há tempos não me dava a esse lixo! Ser sozinho é uma consequência lógica do meu próprio ostracismo. Eu esqueci as velhas preces, os velhos costumes, os medos antigos. É tudo uma beleza. Lembro de quando comecei a dormir sem coberta, sozinho e sem luzes acesas. Foi assim que me senti logo que abandonei a igreja, o sonho de amor perfeito, a casa dos pais. É libertador! Mas, que bosta! Ser livre e ser sozinho são condições muito amigas. Essas duas putas caminham lado a lado, trocam telefones de caras que já pegaram e bebem juntas após cada novo suicídio.
Ser sozinho... Eu nasci no meio do mato. Só havia cães, galinhas, porcos e vacas. Eu era uma beleza de criança feliz. Mas, sem comer o fruto proibido, me tiraram o paraíso. Eu tinha seis anos quando saí do meio do nada pra viver na cidade. Até hoje eu ainda gosto mais da companhia dos cães do que de algumas crianças de seis anos. "Crianças são puras!" - diz o papa-hóstia acéfalo. Puras? Pelo amor do seu deus, amigo! Crianças tem autorização pra liberarem nossos instintos mais banais e mais horríveis. Demoram até pararem de morder umas as outras. Puras... Pff!
Mas, enfim, passar um fim de semana em casa sozinho me faz pensar... A cabeça começou a doer porque acordei tarde demais pra tomar um café forte e robusto. Malditos cereais! Os livros cansam depois das primeiras horas e eu não tenho TV, pra evitar que qualquer idiotia me puxe pra trás novamente e logo eu esteja ouvindo essa música maldita que toca no rádio e comprando cuecas da Calvin Klein. A tarde se torna mais tediosa, porém; minhas escolhas, minhas responsabilidades, como diria tio Ben. Escolhi ser solitário e é o preço a se pagar pra poder viver da forma como eu quero, ser feliz da forma como creio que é humanamente possível - como dizia Freud, passamos mais tempo da vida tentando não ser infeliz do que sendo felizes. Acho que o melhor mesmo seria uns bons dias no mato novamente. Horas de leitura de Lacan podem foder a sua mente! Mas, nada que um bom Bukowski não possa consertar. E, olha só! O velho bêbado despertou a ponta dos meus dedos novamente...